março 18, 2011

Passou por mim e sorriu (Deolinda)

Ele passou por mim e sorriu,
e a chuva parou de cair,
o meu bairro feio tornou-se perfeito,
e o monte de entulho, um jardim.
O charco inquinado voltou a ser lago,
e o peixe ao contrário virou.
Do esgoto empestado saiu perfumado
um rio de nenúfares em flor.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

No metro, enlatados, corpos apertados
suspiram ao ver-me entrar.
Sem pressas que há tempo,
dá gosto o momento,
e tudo mais pode esperar.

O puto do cão com seu acordeão,
põe toda a gente a dançar,
e baila o ladrão,
com o polícia p'la mão,
esvoaçam confetis no ar.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!


Há portas abertas e ruas cobertas
de enfeites de festas sem fim,
e por todo o lado, ouvido e dançado,
o fado é cantado a rir.

E aqueles que vejo, que abraço e que beijo,
falam já meio a sonhar,
se o mundo deu nisto e bastou um sorriso,
o que será se ele me falar.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

o mal do mundo

O mal do mundo não é nem o dinheiro nem o poder, mas sim os segredos. O que passa do que fica. O que todos escondem e nunca mostram. O que nos magoa e não conseguimos explicar. O mal do mundo é falarmos tanto e nunca conseguirmos dizer o que realmente importa. Algo como por exemplo: odeio-te, amo-te ou não sei o que sinto por ti. E pior do que não podermos ou conseguirmos dizer o que sentimos, é o mundo não nos deixar, é o mundo enviar-nos um sinal claro, explícito, óbvio de que, se arriscarmos, vamos inevitavelmente, perder. E não vamos perder nem dinheiro nem poder, mas sim mais um pouco do nosso coração que, em cada batida, vai passar a bater menos do que antes, que em cada momento, vai passar a doer mais do que antes, que em cada amor, vai amar menos do que antes. E por perdermos só isto, vamos perder tudo. Quem nos dera que o mal do mundo fosse só o dinheiro e o poder. Talvez a palavra conseguisse suplantá-los, ultrapassá-los, miná-los, suprimi-los. Talvez a palavra certa, dita no momento certo, seguida do acto certo, salvasse o mundo do estado a que ele chegou.

o ruído

Começa tudo com uma conversa perdida por entre o tempo, perdida por entre a chuva que cai e o vento gélido que sopra. No início, só consigo ouvir um ruído dentro de mim, uma raiva crescente, uma mágoa permanente. É como se o mundo me controlasse e eu detivesse em mim todos os seus desvarios. Começa tudo por um desacordo, a falta de mútuo acordo, a ausência de um "sim" em uníssono.
Enquanto tudo se vai passando, surge em mim um pensamento interior, vindo não sei bem de onde, mas julgo que do fundo do peito, que me vem perguntar o que ainda faço aqui. Que me vem questionar. Que vem deixar-me extremamente confusa.
Sei o seu propósito e sei que é esse o pensamento que é verdadeiro. Mas também sei que o facto de ser verdade não o torna possível. O facto de me sentir assim não faz com que o mundo me queira de outra forma. Pelo menos, não me quererá da forma superior. Aquela: a extasiante.
No fim, fica tudo igual. Fica tudo no sítio donde partiu, excepção feita à dor no fundo do meu peito que não sucumbiu perante a voz do universo. Que não quis desistir daquilo em que acredita.
Mas, no fundo do meu peito, eu sei. Um dia, vai deixar de haver início, porque simplesmente vou calar a minha voz, inseri-la no vazio tal e qual pássaro emudecido, vou pedir ao mundo que me deixe ser feliz. Que me deixe ser finalmente feliz. 

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