julho 28, 2012

Um novo lar


Nasce um novo dia. Lá fora chove, mas aqui dentro reina o clima quente da ausência do coração. Ou, pelo menos, da ligação dos corações. Sente-se um vazio. Uma solidão imensa. Falta lar dentro do lar. Dentro deste lar. Sobram lágrimas, lágrimas já tão secas de sentido e de sentimento. Falta pureza por aqui. O passado não permite que se continue a caminhar levemente, que se continue a acreditar na verdade. O passado matou este lar. Matou os corações. Um por um, devagar, devagarinho.

Os dias nascem, mas é como se não nascessem de facto. Falta a felicidade, a alegria, o diálogo, os sussurros, as gargalhadas. Falta o abraço sincero e o beijo desmedido. Falta a independência e a vontade de união. Sem isso não há lar. Isto é só uma casa. No sentido material da palavra. A metafísica desapareceu ao longo dos anos tal como desapareceu a vontade, o amor, a sinceridade, a preocupação, a independência, o objectivo. Desapareceu o que de mais bonito há nas relações humanas e ficou isto: o vazio, as paredes caiadas de branco-sujo, os quadros velhos sem memórias, a infância perdida, a falsa adolescência feliz, os cigarros que sujaram os meus pulmões, a dor que corroeu o meu peito. Mesmo isso desapareceu. Agora só existe vazio. Um eterno e longo vazio. Um inexplicável vazio.

Estar aqui é estar aí contigo sem poder tocar-te. É pensar que consegui, apesar de tudo, amar e ser amada por vários corações. É saber que vários corações me abraçam com amor. Isso consola-me, isso deixa-me feliz. É isso que me ajuda verdadeiramente a ser feliz. São esses momentos de paz, de alegria, de loucura ou mesmo de calma que fazem a minha vida valer a pena. O meu lar é fora daqui. O meu lar é com vocês: com o vosso amor, com o vosso sorriso, com as vossas palavras, com os vossos risos, com as vossas lágrimas, com a vossa sinceridade, com a vossa maneira de ser e de estar no mundo. O meu lar é onde me sinto bem, onde me sinto amada, onde sou tratada como importante. O meu lar já morreu. Ardeu. Desapareceu.

O meu lar é com vocês. Bem longe daqui. Bem longe deste lugar. O meu lar é com a vossa vida. Com o vosso ser. O meu lar é também contigo, agora. Contigo nesse universo paralelo que me alheia deste mundo. Deste mundo de aparências, falso, asqueroso. O meu mundo é com vocês. E contigo. O meu lar, o meu verdadeiro lar, é ao pé de vocês, é ao pé de ti.

MFG

julho 25, 2012

isolamento existencial (a dois)

Já há luz lá fora. Uma luz ténue, suave e uma leve brisa. Levanto-me da cama, espreguiço-me e olho para ti, olho para ti e vejo-te realmente. Sei que és aquilo que me mostras, sei o teu mistério todo porque o teu mistério é o meu mistério. Passo a minha mão pelo teu braço, sinto um arrepio no coração e saio do quarto. Sinto uma felicidade pacificada. Uma paz feliz. Sinto-me como se todo o mundo fosse bom. Sinto-me com forças para lutar caso não seja assim tão bom. Sinto-me extraordinariamente calma. Sinto-me segura. Esta segurança que nunca tive.
Saio de casa e vou dar uma voltinha por ali. Não há ninguém, não há pessoas, carros ou cães. Oiço, ao longe, o sino da igreja. Mesmo esse som se torna incómodo tal é o silêncio. Tal é a paz. Vou caminhando sem saber muito bem para onde me levará esse caminho, mas não estou preocupada com isso. Sei que a minha paz está aqui. Ou ali deitada no quarto. Porque a minha paz se confunde contigo. 

E agora pergunto: como vivi até aqui sem ti? Sem a tua (c)alma? Sem o teu olhar? Sem o teu cheiro? Sem o teu beijo? Sem o teu carinho?

E enfim, percebo. Percebo que é como dizes, tudo o que se faz por bem é realmente uma obra de arte, que tudo isto estava destinado, que é como se isto já tivesse acontecido há tanto tempo, mas só aconteceu agora apenas fisicamente. E isolámo-nos do mundo. Criámos o nosso próprio mundo. O nosso ser. A nossa metafísica. O nosso cantinho. Mas sempre a dois. A verdade é que seria indiferente se estivessemos sozinhos, porque a verdade é que somos tão semelhantes, tão parecidos, tão genuínos que eu sou tu e tu és eu. E onde ficou este isolamento existencial a dois? Ficou lá nas ruas e vielas silenciosas? Nas pessoas que não passaram por nós? Nos cães que não nos ladraram? No vento ausente nos dias quentes? Ou no calor que era substituído pela leve brisa ao fim da tarde? Nos nossos abraços ternos e calorosos? Nos nossos beijos que arrepiam?

Esse isolamento ficou lá e veio connosco nesta vontade intensa de nos isolarmos do mundo para conseguir compreendê-lo, para conseguir finalmente amá-lo. Entendê-lo. Abraçá-lo. É só estando fora da sociedade que podemos compreendê-la. E é so estando fora de ti que te posso entender. Sempre.

MFG

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