julho 14, 2014

paragem do costume

Saíste na paragem do costume. As senhoras que estavam sentadas ao nosso lado - e ao meu continuaram - olharam-nos quando demos o beijinho de despedida. Que terão pensado nesse momento? Conseguirão ver como nos amamos ou acharão que somos mais dois tolos que acham que estão apaixonados e que em breve perceberão como é a vida? Enfim. A verdade é que ainda não tinhas ido e já sentias saudades tuas. Do teu olhar que me olha com um carinho indescritível e incomparável. Da tua presença que me enche de uma paz tão imensa como se tivesse mergulhado no mar mais límpido do mundo, talvez na Islândia, considerado o país mais limpo do mundo por algumas universidades americanas. Enquanto caminho em direção a casa apercebo-me de tantas coisas: que acabei de deixar o meu verdadeiro lar na paragem do costume, um dos poucos sítios em que me sinto eu própria, sem máscaras ou fingimentos; que apenas umas horas contigo me conseguem trazer de volta aquelas tardes (tão bem) passadas apenas a passear e a conversar, sobre tudo e nada, sobre as minhas questões existenciais e sobre assuntos mais terrenos, sobre o que sentíamos um pelo outro (e ainda sentimos), sobre o futuro e o presente, sobre as angústias e as certezas; que o teu toque se me apresenta como mais familiar do que qualquer outro toque; que estou agora a inspirar e expirar paz e não oxigénio e dióxido de carbono, respetivamente (nem sabia que isto era possível); que me fazes acreditar na nossa imortalidade e na eternidade do nosso amor; que ainda estás aqui ao meu lado a fazer-me sorrir discretamente, a fazer-me acreditar na bondade do ser humano; que, mesmo longe, nunca me abandonas totalmente - permaneces aqui bem pertinho, no meu peito.
Saíste na paragem do costume. Por que é que sais sempre aí? Quando chegará o dia em que sairemos os dois na mesma paragem e seremos, mais do que no imaginário, o lar um do outro?

julho 10, 2014

procurei uma ideologia a todo o custo

Procurei uma ideologia a todo o custo. Desde cedo me disseram sempre: és muito inteligente, tens de encontrar algo à tua medida. Procurei, então, incessantemente por algo que me definisse. E foi sempre assim que me desiludi. Primeiramente desiludi-me com a religião. Entendi que não era na Bíblia ou no catolicismo que iria encontrar as respostas às minhas perguntas, aos meus dilemas existenciais. Ir à missa começou-me a parecer um ritual egoísta quando iniciei na escola o estudo da Primeira e Segunda Guerra Mundial. Deus - omnipotente e omnisciente - começou a parecer-me uma névoa em vez da claridade que até aí me dava forças. Percebi que para se acreditar nesse Deus teria que deixar de pensar, teria de aceitar a "verdade" sem a questionar, quase como uma cega no que às ideias diz respeito. 
Em segundo lugar, desiludi-me com a política. Quando há alguns anos, li sobre a teoria de Marx e Engels pensei ter encontrado o meu sentido de vida. Esse passava, inevitavelmente, pela queda do sistema e implementação de outro completamente diferente. Para isso entrei no Partido Comunista e lá permaneci durante dois anos - em que lá estive de alma e coração, mesmo que muitos não reconheçam isso. Tinha aquela ilusão da juventude, aquela vontade de fazer cada vez mais e melhor, de ajudar os outros. E isso dava-me alento, era o sentido que a minha parecia tomar e parecia estar certo. Até que, mais uma vez, a vida esbofeteou-me, sem me pedir licença, e eu caí em mim: o Comunismo não era o que eu pensava nem o partido defendia o mesmo que eu. Na ideologia deles faltava a parte ética que eu tinha na minha mente - e sempre tive - e isso fez-me derramar tantas lágrimas e moldou, ainda mais do que a religião, o meu pensamento.
Em terceiro lugar, desiludi-me com o veganismo. Ao conhecer a prima de um amigo meu tive conhecimento do vegetarianismo, da meditação, enfim, do que muitos chamam "new age". Interessei-me e comecei a pesquisar: descobri as atrocidades feitas aos animais e chorei pela minha hipocrisia. Como podia dizer que amava animais se os comia? Se os vestia? Se usava cosméticos que tinham sido testados neles de forma horrenda? Decidi então tornar-me vegetariana. Inicialmente era uma adepta fervorosa, tal como tinha sido da religião e da política. É esta uma característica minha: defendo aquilo em que acredito com "unhas e dentes", até ao fim e sem medos. Mas quando deixo de acreditar... Crio uma bolha emocional em relação ao assunto e não mais volto a acreditar. Aconteceu mais uma vez isso com o veganismo: este apresentava-se muito restritivo, tanto a nível económico como social, e colocava-me numa situação de saudável tristeza: emagreci, o meu corpo parecia gostar deste tipo de alimentação (sem derivados) mas a minha mente, alma e coração torciam o nariz a esta alteração de estilo de vida.
Sinto-me perdida, muita vezes. Porque pareço finalmente entender que nada me define. Só quero aproveitar cada dia com os que amo.. Deixas-me? Dizes-me que não vais desistir de mim?

junho 25, 2014

sobre os homens comuns (?)

Este texto é sobre o homem comum. Digo-o para que quem o vá ler já saiba de antemão que irei destilar algum ódio (não sabia o que lhe chamar) aos pseudo-intelectuais. Este texto parece, para quem me conhece, um pouco contraditório. Eu que sempre adorei ler e estudar a criticar os pseudo-intelectuais?
Deixem-me explicar o meu raciocínio e vejam se ele pode fazer algum tipo de sentido. Como nos diz Osho, citando de memória, nunca são os homens comuns que se acham "salvadores da pátria", "salvadores da humanidade", mas sim os pseudo-intelectuais, aqueles que se consideram de alguma forma superiores aos comuns. Esquecem-se porém, como nos diz também Osho, que são esses os complexados. São pequenos, talvez mais até do que os comuns. Procuram no marxismo, no feminismo, no veganismo, no nazismo, no fascismo, no socialismo e em tantos outros "ismos" a cura para os males do mundo. Mas na verdade, procuram as curas para os seus próprios males. O mundo não precisa de ser curado. O mundo não padece de nenhuma doença. O mundo está bem tal e qual como está: o mundo é a natureza e essa, meus caros, é perfeita. De uma perfeição inalcançável pelo homem (comum ou incomum). O que precisa então de ser curado, meus caros, senão os homens?quer dizer, os Homens?
Lamento... Também ainda não é esse o meu ponto de vista. Ninguém precisa de ser curado. E, mais do que isso, ninguém pode achar-se no direito de curar o Outro, posicionando-se, mesmo que o não diga, num patamar superior em relação a este. Nós, seres humanos - uns mais humanos do que outros - apenas precisamos de ser Amados. Só o Amor poderá tornar os seres humanos mais humanos ou mesmo apenas humanos. Portanto, esqueçam todas as teorias político-filosóficas. Esqueçam Marx e a dialética marxista. Esqueçam os grandes teóricos do anti-semitismo como Rosenberg. Esqueçam o movimento feminista. Esqueçam o Gary e o movimento vegan. Estão confusos, certo? Se vos digo para esquecerem tudo isto e até o movimento pela libertação dos negros, o Rastafarianismo, o Cristianismo, o Judaísmo, a religião Adventista, o Budismo e todas as demais religiões, grupos de pensamento, teóricos, ensaístas, filósofos, políticos, literatos, então qual é a salvação para o Mundo?
Repito novamente: o Mundo não precisa de ser salvo. E todos os movimento que o dizem tentar fazer estão apenas a fraturar a humanidade em grupos que nos distanciam uns dos outros. A verdade é que se cria sempre a ideia de "nós" e dos "outros". Nós, os justos; nós, os corretos; nós, os morais; e os outros: os imorais, os injustos, os incorretos. Errado: estamos todos errados há milénios. Com este texto não desejo fazer um apelo à ignorância, mas sim à sensatez: olhemos os outros com benevolência e com Amor. Deixemos de nos colocar num plano superior a eles. Pois a verdade é que somos todos terra. A chegarmos ao céu, só será na hora da morte.

maio 20, 2014

pensamentos que de nada servem...

 Estou aqui sentada a pensar nos últimos dias. A pensar no quão exigente sou comigo mesma. Estudo, trabalho (aliás agora tenho dois trabalhos), tento ser prestável para com os outros e acabo por magoar os que mais amo. Eu, que nunca pensei ter uma única atitude de ciúmes, consegui ser o mais desprezível possível com o amor da minha vida. Como pude duvidar da sua moralidade? Dos seus valores? E do seu amor por mim? Que raio de pessoa sou eu se não acredito numa das pessoas mais importantes para mim? Numa das pessoas que tem estado comigo no bom e no mau, no certo e no incerto, na luz e na escuridão?
Estou exausta. Uma exaustão física. E psicológica. Não quero cair de novo no abismo, mas o corpo e a mente parecem querer. Era tão mais fácil cair... Perdi, quer dizer tenho vindo a perder uma amiga - seria amiga de verdade? - que considerava como irmã... Tenho questionado muito sobre o tipo de pessoa que ela é ... Será que é o que dizia ser? As atitudes têm, muitas vezes, mostrado o contrário... Apetece-me perdoá-la, mas como se ela não me pede desculpa por nada? A culpa é sempre minha... Pelo menos é o que ela diz... Quer fazer-me acreditar que sou má pessoa, será que a deixo? Será que deixo que me deite abaixo? E o resto? E o resto que sempre me deitou abaixo? Agarro-me a isso e afundo-me de novo nesta merda desta depressão? Que teima, como sempre, em vencer, em apoderar-se das minhas entranhas e tirar-me a fome, o sono, a vontade de viver, de existir, de ser, de querer, de lutar? Que é que eu faço?
 Quem me dera que alguém pudesse decidir por mim e me dissesse que tudo irá correr bem... Quem me dera poder gritar e o mundo pudesse parar de girar e todos os bons seres me abraçassem e apertassem e me dissessem que eu não merecia, nem mereço sofrer. Quem me dera que a minha mãe nunca me tivesse rejeitado, batido, tratado mal, desprezado, olhado com ar de desprezo, chamado "sem-abrigo". Quem me dera que o meu irmão nunca me tivesse violado, molestado, espancado, tirado a auto-estima. Quem me dera que o meu ex-namorado nunca me tivesse tentado bater, que nunca tivesse posto em causa a veracidade do que lhe disse. Quem me dera que a amiga de que falo me entendesse, entendesse o que sofro dia após dia e que me desse o espaço de que necessito para finalmente sentir saudades dela, como dantes. Quem me dera que muitas coisas fossem mais simples. Quem me dera não ter de trabalhar num café, quem me dera fazer algo mais de acordo com as minhas capacidades intelectuais, algo que me estimulasse, algo que me motivasse. Quem me dera, depois de 15 anos a estudar, não ter de fazer outro curso enquanto trabalho. Quem me dera não conviver com pessoas falsas e hipócritas todos os dias. Quem me dera não ganhar 500 euros depois de tantos anos a estudar. Quem me dera ter tempo para conversar com o meu namorado como dantes, aquelas conversas filosóficas de que sinto tanta falta. Quem me dera ter mais tempo para conversar com a Cátia, com a Vera, com a Inês. Quem me dera que o João morasse mais perto para podermos ir a concertos revolucionários. Quem me dera que a Vilar voltasse para Lisboa. Quem me dera que a minha tia nunca tivesse partido. Quem me dera ainda poder ouvir a voz do Morais dizer "então e os gajos?". Quem me dera ser tão ingénua como dantes... Quem me dera voltar ao secundário, altura mais feliz da minha vida em termos de amizades, mas incluir nessa altura o meu Huguinho.

   Tenho esperança, uma esperança idiota e absurda, de que tudo isto irá voltar. Pelo menos, o Morais volta sempre para mim, todos os dias está comigo. Tenho de me deixar a mim própria acreditar que as coisas vão tomar um rumo fantástico, e que eu própria vou ficar surpreendida com o quão fantástica a minha vida será a partir do momento em que ponha o pé fora desta casa, em que passe a partilhar o quarto com o meu amor e não com o meu irmão (?), em que possa estar com as minhas queridas e eternas amigas quando bem nos apetecer, em que possa pintar, voltar a escrever a sério, abrir o meu negócio e divertir-me, namorar, passear, ir ao cinema, ao teatro, cozinhar.

Tenho demasiadas saudades vossas. Vera, Cátia, Inês.
E tuas. Hugo.
E tuas. João.
E tuas. Vilar.
E tuas. Morais.


abril 21, 2014

Prendeste-me

Ajudei-te. Fi-lo sempre. E sem esperar que mo dissesses, sem esperar que me agradecesses. Éramos amigas - digo-o no passado, pois já não somos, certo? -, brincávamos até dizendo que éramos "duas vidas separadas pelo tempo", tais eram as nossas parecenças. Conversávamos imenso, trocávamos ideias, ríamos muito juntas. Havia coisas que só em ti confiava para contar devido à experiência de vida que já tens em comparação comigo. Custou-me muito a última mensagem que me enviaste. Eu, mais uma vez, abri o meu coração para ti, escarrapachei todos os meus sentimentos, anseios, dúvidas e tu foste fria. Desprezaste os meus sentimentos. Pegaste no meu coração, amarfanhaste-o e deitaste-o no lixo. Quantas e quantas vezes calei eu os meus sentimentos para não te magoar? Quantas foram as atitudes menos agradáveis que tiveste para comigo e que eu evitei salientar para não te magoar? Quantas vezes medi as palavras - com uma régua emocional - para que elas não parecessem facas a trespassar o teu peito? Sempre com mil cuidados, pois sei como podem ser fatais as palavras. 
Ajudei-te. Fi-lo sempre. Mas tu não foste capaz de me pagar na mesma moeda. Quando o tempo começou a escassear, achaste que eu deveria conseguir corresponder às tuas expectativas. Eu tinha de conseguir fazer tudo e ainda estar contigo. Ou então tinha de desistir das minhas coisas para estar contigo. Comecei a sentir que a nossa relação não era de igual para igual, havia uma mais igual do que a outra.Comecei a sentir que te era mais útil quando te ajudava nos trabalhos. E fiquei ainda a saber que tinha de te ligar mal mo pedisses sob pena de te magoar. Fiquei a saber que o teu amor tem um preço, um preço demasiado alto para mim: pôr de lado a minha individualidade e os meus objectivos. 
A vida,como tu bem sabes, não é como queremos. É como é. E a nossa amizade, se fosse mesmo muito forte e sólida, ter-se-ia adaptado a essa vida que mudou. E tu ter-te-ias, com toda a certeza, posto no meu lugar - quer dizer, tentado - e compreendido as limitações que tenho neste momento. E se não me tivesses tentado prender, eu queria voltar a ti, voltar à tua companhia e encontraria, no meio do caos, uma luz que me guiasse até ti. Não me deste liberdade, prendeste-me, tentaste controlar as minhas próprias vontades. E desta vez acho que foi para sempre.

março 28, 2014

Odeio-te...

Odeio-te. Sei que é uma palavra muito forte, mas a verdade é que te odeio. Enojas-me. Sempre que me cumprimentas, o meu estômago revolta-se, o meu coração bate mais rápido como que preparando-se para a fuga. Odeio-te. Odeio-te porque mesmo sentindo isto que sinto me preocupo contigo. Odeio-te porque quanto mais me afasto da altura em que me tiraste a infância, mais me sinto nela. Não é que me lembre dos pormenores todos - os especialistas dizem até que é normal -, mas lembro-me do que sinto. O que sinto é semelhante a um abismo. É como se a minha alma estivesse no cimo de uma montanha e ao invés de aproveitar a paisagem, apenas quisesse atirar-se sem pensar duas vezes. É como se a minha mente estivesse a banhar-se num rio belíssimo de água límpida e ao invés de mergulhar nele tivesse apenas vontade de se afogar. É como se o meu coração, que bate compassadamente ao som do amor, se tivesse tornado num simples papel amarfanhado que colocamos no caixote do lixo ao pé dos iogurtes já bebidos e da carne putrefacta. 
Odeio-te. Odeio-te porque de facto não te odeio. Não sou capaz disso. Mas posso dizer-te -  não te dizendo, porque nunca to direi (não o mereces) - que és tu o responsável pela minha arritmia; és tu o responsável pelas minhas oscilações de peso; és tu o responsável pela minha dificuldade em relacionar-me comigo mesma; és tu o responsável pela minha baixa auto-estima de há uns anos; és tu o responsável pela pessoa de merda que eu poderia ter sido. E eu sou a responsável pela boa pessoa que de facto sou!
Gosto de mim....
Gosto de mim....
... E tenho de dizê-lo todos os dias ao espelho... E a culpa é tua...

Eu tenho de viver sempre com as memórias, com o vazio, com este abismo existencial, com esta crua realidade. Mas tu? Tu, mesmo sendo um verdadeiro psicopata, terás que conviver para toda a eternidade com aquilo que fizeste. Porque tu sabes, mesmo que não queiras admitir, que mataste parte do que eu poderia ter sido, mas tu... Tu não poderias ter morto nada em ti, porque tu não vales nada...

fevereiro 03, 2014

Amo-te Hugo

Peço muito pouco... Só peço que:
Durmas a meu lado todas as noites; que possa sentir o calor do teu corpo e o teu beijo antes de adormecer; que me possas acalmar quando vierem os pesadelos; que possamos preparar as refeições juntos; que possamos estar abraçados a ver televisão; que possamos definir a nossa rotina e os nossos horários; que possamos dançar juntos sem olhares inquisitivos; que possamos passear pela cidade; que possamos ir a um restaurante vegetariano diferente quando nos apetecer sem que ninguém nos fale das contas; que possamos rir juntos sem medo; que possamos mimar-nos um ao outro; que possamos ir ao cinema; que possamos ir ao teatro; que possamos passear por um jardim e comer o mesmo gelado; que possamos conversas horas e horas a fio; que possamos jogar jogos de tabuleiro; que possamos comemorar os nossos meses de namoro com noites diferentes; que possamos sentir sempre o arrepio que sentimos quando olhamos nos olhos um do outro; que possamos, enfim, viver o nosso amor sem que ninguém se intrometa. Que possamos viver a nossa vida em paz, como bem nos apetecer, da forma que fizer mais sentido para nós.

Amo-te. Simplesmente.

dantes as pessoas não morriam

Quando eu era pequena as pessoas não morriam. Aliás até à morte da minha avó, eu nem pensava nisso, nem sabia o que era isso de morrer. Se as pessoas estão aqui agora por que razão hão-de desaparecer? Ou se desaparecerem, hão-de voltar mais tarde - pensava eu.Quando a minha avó faleceu, eu chorei - não sabia ainda por que razão a minha mãe chorava tanto nem compreendi por que razão ela passou dias e dias que se tornaram em semanas a chorar convulsivamente. Hoje entendo. Agora, já bem mais velha, já maior de idade segundo a lei - essa coisa inventada pelos homens para regulamentar as nossas vidas - as pessoas passaram a morrer. E eu não entendo bem porquê. Se antes não morriam por que razão morrem agora? Se as pessoas desapareciam da minha vista, mas mal eu voltava ao lugar onde elas estavam, elas tinham permanecido lá? Era o que acontecia com a minha avó. Sempre que íamos ao Norte passar as férias - relaxar a mente desta turbulência citadina - ela estava lá, sentada no degrau da casa a fazer-nos mais umas mantas e sempre bem disposta. Ela nunca deixou de lá estar. Por isso não acredito que ela tenha morrido, falecido, desaparecido. Acredito que se voltar ao Norte ela estará lá. De facto nunca lá voltei. Coisas da vida. Tenho-me apercebido, após ver um amigo de longa data em estado terminal no IPO devido a um cancro no pulmão, que todos iremos inevitavelmente partir, falecer, morrer. Uns com cancro, outros num acidente de automóvel, outros com uma paragem cardio-respiratória, outros engasgados, outros afogados. Enfim. A verdade é que preciso que nós desapareçamos para outros poderem nascer. É um ciclo. Acho que o que custa é não sabermos o que acontece a seguir. Eu quero acreditar que acontece algo, seja o que for. Pois caso não aconteça nada cai-se no vazio existencial. Entendo isto, entendo que de facto as pessoas têm de partir, que estão apenas numa missão aqui na terra. O que eu não entendo é que quando era pequena as pessoas não morriam... Quando eu era pequena as pessoas eram eternas, imortais, tinham asas e voavam todos os dias mas acabavam por voltar. Nem sequer me lembro das pessoas ficarem realmente doentes. Só me lembro de ficarem velhas. Mas morrer? Morrer não. Será que só começaram a morrer quando eu fiquei mais velha? Ou será que as pessoas que me dizem ter partido mostrando-me os seus corpos mortos ou levando-me aos seus funerais, continuam a cirandar por aí, tendo mudado apenas de rotinas e de casas e de vontades e de desejos e de caminhos e de corpos? Bem me parecia... Afinal as pessoas nunca morreram, nunca irão morrer!... Elas estão aqui, pois é com a ajuda delas que reflito sobre esta merda que é a morte. Elas estão aqui pois nunca as esqueci nem esquecerei. Elas estão aqui para me mostrar que cada segundo desperdiçado a pensar na morte, a pensar na sua inevitabilidade é um segundo perdido, é um segundo que não voltará.
Mando então um beijinho a cada pessoa que está no meu coração e que já não existe fisicamente e agradeço por terem existido na minha vida. E por me ensinarem que, afinal, a morte não existe.


fevereiro 02, 2014

mudei por ti

És, para mim, o último e único Homem à face da terra
O único em cujo olhar vejo a própria alma
A tua, a minha, a nossa
E quando o meu mundo parece desabar e nada parece fazer sentido
Tu ofereces-me a tua calma
Mesmo que tu próprio também estejas naquele momento perdido

Queria dizer-te tanta coisa,
Queria beijar-te com palavras de amor e de carinho
Queria abraçar-te com frases sentidas e,
Por fim, amar-te tanto como a ave
Ama a árvore onde poisa e faz o seu ninho

Tu és e sempre serás – ainda que o futuro seja
Como dizes, uma invenção do homem –
O amor perdido que me foi tirado na infância
A compreensão latente que nunca me foi dada
Tu és e sempre serás esta ânsia
De te querer tanto,
De te querer a toda a hora,
Da dor que me dá sempre que te vais embora
E do sorriso com que me deixas com o teu cheiro
Até ao dia em que chegue a minha hora…

Até ao dia em que Deus que não existe me virá buscar
Para abraçar os que entretanto partiram,
Os que entretanto já deixaram de me olhar…
Mas, amor, nenhum deles terá, em nenhum momento da minha vida,
A importância, a relevância, a saliência que tu,
Com a expressividade do teu olhar e a franqueza da tua voz,
Tens a cada dia

E, ainda que os dias acabem, que envelheçamos e que o teu olhar
– ainda expressivo – esteja envolto em rugas,
Acredita, meu amor,
Por cada beijo teu, nascerá uma semente de esperança dentro de mim,
Nascerá uma nova vida a cada dia em que acordar a teu lado

Porque antes de ti, amor, antes de ti não existia, antes de ti era como uma flor
Partida pela ingenuidade da criança ou pela maldade do adulto
Antes de ti, eu era uma flor sem campo, eu era uma flor sem raíz, eu era uma flor
Usada pelo homem para seduzir mulheres apenas com o intuito de as usar
Tal e qual um brinquedo.
Antes de ti, achava ser impossível encontrar Homem algum que não olhasse para
As mulheres como um brinquedo e perdia, a cada dia, a esperança de que isso acontecesse
Mas aconteceu,
E lindo, desde esse dia uma parte de mim morreu e outro “Eu” nasceu…

É este “Eu” que te escreve para te dizer que antes de ti, meu amor, antes de ti
O Sol só brilhava para os outros e o céu parecia estar sempre nebulado dentro de mim
E qualquer ruído era um som pesado e qualquer musica uma ode à tristeza…

Mas depois de ti, amor, depois de ti o Sol passou a existir mesmo em dias negros e cinzentos
Em que a chuva não dá descanso e uma simples pedra passou a ser motivo para sorrir
A verdade, amor, é que não foi a vida que mudou, não foi a natureza que mudou
- ela sempre esteve ali – Quem mudou, meu amor,
Quem mudou fui eu. E mudei por ti.

Amo-te

janeiro 10, 2014

sobre o coração...

Desde pequena que sempre pensei muito. Sempre reflecti muito sobre o mundo, a sociedade, os outros e sobre mim própria. A certa altura caí no existencialismo, mas nunca, em momento algum, pus em causa a beleza da vida. Uns diziam-me que ia ter muito sucesso, outros que iria ser professora, pois sempre adorei ensinar. Sei que adoro aprender, adoro saber mais coisas sobre o mundo, sobre o que já passou, sobre o que ainda se passa, sobre as várias teorias. E sei que é nas escolas que me sinto verdadeiramente eu. É a transmitir conhecimento - seja ele qual for - que me sinto verdadeiramente eu. Da área de ciência e tecnologias passei para a Ciência Política e desta para a nutrição. O que as une? A minha vontade de mostrar que alterando os hábitos alimentares e estilo de vida podemos contribuir para diminuir os problemas ecológicos que hoje enfrentamos. Profissionalmente o que posso vir a fazer com isto? Ainda não sei... Mas dar palestras em escolas far-me-ia muito feliz. Criar uma associação para melhorar os hábitos alimentares, isto é, mostrando os benefícios de uma dieta vegetariana ou vegan. Cozinhar para fora. Participar em feiras vegetarianas e vegans. Sinto-me no limbo, pois ainda não sei bem o que fazer com aquilo que estou a estudar de momento. Sei que adoro o contacto com as pessoas, que isso também me faz verdadeiramente feliz. E iria ser tão feliz se pudesse ajudá-las a alimentar-se melhor e a sentirem-se melhor. Se entendessem que fazemos parte de um grande ciclo, que fazemos parte da natureza e devemos preservá-la. Ainda quero tanta coisa e lá hei-de chegar, estou certa. Ainda quero ter uma horta, fazer compostagem, ter cães e quem sabe galinhas, viver mais em contacto com a natureza, num sítio onde haja pouco barulho e poucos automóveis. Ainda quero escrever livros, uns de receitas, outros de pendor mais literário. Ainda quero viajar muito. Ainda quero abraçar os que amo, beijá-los, amá-los. Ainda quero muito. Mas para tudo isto atingir tenho de ter mais calma para, assim, poder ter mais saúde. Tenho de deixar de lado o egocentrismo característico do estado depressivo e ansioso, apagar da mente certos assuntos e deixar o tempo fazer o seu percurso. Amar os que me amam sem medo do amanhã. O amanhã ainda não existe. Não posso lidar com aquilo que ainda nem chegou. E que talvez nunca chegará. Dói-me o peito, custa-me muito respirar. Por favor, nunca vejam nos antidepressivos a saída para uma tristeza profunda. Procurem outras ajudas, orientais ou não. O meu coração quer sair do peito, mas eu não vou deixar, vou mantê-lo dentro de mim, sempre. Porque eu quero continuar a viver, quero continuar a apreciar as coisas boas da vida e preocupar-me menos com as más. 

janeiro 01, 2014

um ano novo chegou...

Um ano novo chegou. Escrevo no primeiro dia do ano para celebrar o estar viva e de boa saúde. Não, não tenho 90 anos, tenho apenas 21 (quase 22), mas quase todo o último ano foi passado a recuperar de uma depressão que quase me levou à loucura e à qual ainda vou estando atenta, já que deixei os anti-depressivos há cerca de duas semanas. Talvez este texto seja demasiado pessoal, demasiado íntimo, mas é assim que me apetece escrever hoje. Este ano que chega - 2014 - é a consequência das aprendizagens ao longo do ano de 2013. Aprendi muito, aprendi a lição mais dura de todas: não somos heróis. Somos seres frágeis que de um momento para o outro podem cair, desejando até morrer para acabar com a dor. O porquê dessa dor não irei expor aqui, mas é uma dor que já vem de há anos. Quando estava no limite, o limite do suportável, foram poucas as pessoas que se preocuparam, que de uma forma ou outra me tentaram ajudaram, mas a essas devo, sem dúvida, a minha vida. Estou a aprender a sentir o chão, como ouvi no outro dia um senhor dizer. Estou a reaprender a sentir. Estou a mudar, mas a mudar para melhor, a aprimorar-me. Nunca deixarei de ser a insubmissa que não se contenta com o capitalismo ou a menina que ainda acredita na bondade alheia. Nunca deixarei de amar ler sobre história, política, coisas espirituais e outro tipo de assuntos. Nunca deixarei de sentir prazer a ouvir música mexida, mas também música com letras cheias de conteúdo. Nunca deixarei de sonhar, de sonhar muito. Nunca deixarei de abraçar os meus amigos, de os amar de verdade, de os aceitar, de os compreender, mas simultaneamente de os deixar seguir o seu caminho. Nunca deixarei de amar o meu namorado que é muito mais que isso: é o meu companheiro, o meu pai, o meu irmão, o meu amor. Nunca deixarei de acreditar que iremos viver juntos e iremos ter um cãozinho. 
Um ano novo chegou. Escrevo no primeiro dia do ano para celebrar a vida. E começo o ano com a vontade de seguir mais o coração do que a cabeça e de me sentir bem na minha pele, nos meus defeitos e nos meus medos. Começo o ano cheia de vontade de crescer, de amar, de me desenvolver enquanto ser humano. Um bom ano para todos.

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