dezembro 30, 2011

eterna mágoa

«Dá-me um abraço e diz que me entendes. Não quero que digas que me amas, pois isso é efémero. Diz-me que me compreendes, que entendes a minha dor. Eu consigo ver nos teus olhos se entendes. Consigo perceber pelos teus gestos se me percebes. Se captaste a dor que há em mim.»

«Não me dês presentes, eu não os quero. Não me mintas, eu sinto asco pela mentira. Diz-me a verdade. Diz-me o que realmente pensas. Diz-me se me queres aqui. Por que razão me mentiste sempre? Eu sou tua filha. E tu nunca me amaste!  Não dizem que o amor de mãe é verdadeiro? Onde está o teu, mãe?»

«Desculpa. A culpa é minha, mãe. O erro fui eu. Eu sou um erro. Um risco. Uma linha demasiado grande. O fim de um trajecto. Eu fui feita sem ser feita. Eu não devia estar aqui. Eu - admito - sou um erro.»

«Vivo com esta dor, com esta mágoa e carrego-a todos os dias. Cada dia a dor me verga mais. Há dias em que tu me vês erguida, mas minh'alma está debruçada como um vime de tristeza. Há dias em que, por detrás da minha aparência feliz e sadia, está a minha mágoa e a minha dor. »

«Por muitos anos que passem, mãe, eu nunca vou esquecer. Nunca vou esquecer que não me quiseste ter. Que não sou o que querias. Que querias o oposto do que sou. Que nunca me aceitaste assim. E que, por mais que eu me esforce por te agradar, nunca é suficiente. Mas que mal fiz eu?»

«A vida ir-se-á encarregar de me explicar isto. De me explicar por que tenho de sofrer assim. Por que razão os outros podem abraçar-te e eu não. A vida vai dizer-me, eu sei que sim. E é só por isto que nunca saberei o que é viver límpida, clara, sem mágoa, sem dor, sem guerra. Porque a pessoa que mais me devia amar, é a pessoa que menos ama.»

«Desculpa. Se é que a culpa de ter vindo ao mundo, é minha.»

vazio

Sinto-me vazia. Não é vazia no sentido de não amar e ser amada. Não é vazia no sentido de ser infeliz. Não é vazia no sentido de não ter objectivos e sonhos. É vazia no sentido de desorientada. No sentido de não saber se é este o caminho, se é assim que devo fazer ou, se no fim de contas, nada disto vale a pena. É uma sensação de vazio que me preenche desde que acordo até que me deito. Planeio o meu dia, mas ainda ele não vai a meio, e já desisti de metade dos sonhos. Já desfiz metade dos planos.
Há quanto tempo não consigo fazer aquilo que realmente quero... E será que quero aquilo que realmente quero? Ou será que quero o que penso querer?
Sinto-me iludida. Não iludida no sentido das coisas correrem mal. Não iludida como sinónimo de desilusão. Iludida porque vivi muito tempo de ilusões. E agora essas mesmas ilusões parecem querer transformar-me e, eu não as deixo. Sinto que sofro de excesso de sonhos. Sinto que sofro de excesso de sentimentos. Sentir é o meu maior tormento. Sinto muito. Sinto sempre. Sinto demais. Sinto pelo que nem meu é. Sinto pelo que nunca será meu.
Será que é deste mal que irei perecer? Eu só queria ver as flores, cheirá-las, olhar o Sol... E só queria que isso fizesse todo o sentido... Que isso fosse o meu mundo e que isso dependesse de mim, do meu amor, da minha dor, da minha felicidade, da minha mágoa...
Sinto-me assim. Desta forma. Desta maneira. Não sei ser de outra maneira. Não sei não sentir e, por vezes, nem sentir sei. Quero tudo de uma vez e, por isso, perco tudo sem sequer o possuir. É assim. Sinto-me assim. Hoje, sinto-me assim. E não sei o que é isto.

MFG

dezembro 20, 2011

A morte

Acho que não compreendo a morte, porque ela é antinatural.

Parece que estou a dizer um contrasenso, mas como posso imaginar que estou aqui hoje e sei-o perfeitamente e amanhã já não?
Não acredito em Deus, nem em nenhuma entidade superior e, no fim de contas, é por isso que me é ainda mais difícil entender a morte. Se eu te amo, como posso aceitar que, por uma qualquer fatalidade, tu desapareças? ...Como posso aceitar nunca mais sentir o teu abraço? Acho que é daqui que vem a minha ânsia em viver (que, por vezes, tanto mal me faz) tudo hoje e agora... Não quero que vás, não quero que vás antes de mim, mas também não quero ir porque não te quero fazer sofrer. E, apesar do livre-arbítrio, é aqui neste campo que ninguém pode escolher. Só posso escolher como vivo e viver.

Colonização

É difícil, como dizia Saramago, «explicarmos porque pensamos desta forma e não de outra qualquer». Acrescentaria que isto acontece porque a nossa receptividade ao outro é, em muitos casos, mínima. Queremos, como dizia também Saramago, «colonizar o outro, impondo-lhe a nossa opinião». Não estamos ainda preparados para ouvir o Outro, respeitá-lo e tentar compreendê-lo. Julgamos cada passo dado pelo Outro, cada sílaba que sai da sua boca sem questionar os nossos próprios actos. Não existe nenhum Ser Humano sem contradições internas - somos duais por natureza. O que faz com que evoluamos é a vontade de minar essas contradições, de neutralizá-las, de clarificá-las. Só assim conseguiremos o "Homem Novo", aquele acerca do qual tantos escreveram, aquele acerca do qual tantos teorizaram, mas que penso (com algum pessimismo) nunca irá existir. Pelo menos, não enquanto não se abolir do pensamento Humano a perfeição, a ideia de que o Outro nunca é límpido e claro como Eu, a ideia de que o Outro é apenas mais um, a ideia de que o Outro é o outro e Eu sou Eu. Enquanto o Homem não perceber que somos todos iguais, continuarão as guerras, o imperialismo, o colonialismo - de todas as formas: reais e psicológicas.

Colonizar não é só invadir um outro país e determinar que me pertence. Colonizar é, por meio da violência, persuadir o Outro a pensar o que eu penso e a viver como eu vivo. Colonizar é, por meio dos olhares de soslaio, demonstrar desprezo pelo que eu visto ou pelo meu estilo. Colonizar é, ao ouvir o que penso e sinto, gritar comigo violentamente até que me cale. Colonizar é, no fim de contas, todas as acções que tenham em vista a subjugação do Outro, inferiorizando-o até que ele próprio se convença de que não só é inferior, como merece ser tratado como tal. [Será exagero meu ou conhecemos todos muitas pessoas que foram colonizadas?]

Acho que até hoje nunca existiu democracia.

novembro 22, 2011

Conversas aleatórias

"O relógio não pára de trabalhar. As horas passam, os minutos passam, os segundos passam. Os dias passam. As pessoas saem de casa para o emprego e vêm do emprego para casa. Saem cedíssimo e chegam tardíssimo. Tratam dos filhos - as que os podem ter ou, simplesmente, os tiveram -, limpam a casa, tentam distrair-se com o que dá na televisão ou com uma rede social. Vão dormir, mas como sofrem de insónias, veêm-se obrigadas a tomar uns comprimidos para o conseguir fazer. Se, de noite os filhos choram, levantam-se tal e qual um exército caso o general os chame a meio da noite, e resolvem o assunto - qualquer que ele seja. Os que não conseguem ter filhos, vão a consultas para tentar atingir esse sonho. No entanto, a vida será exactamente igual. A certo ponto os filhos começam a ir para a escola. Uns adaptam-se mais facilmente, outros com maiores dificuldades. Na adolescência, tudo pode acontecer ( ou então, não acontece nada, o que continua a ser mau). E quando se tornam adultos, tornam-se independentes e seguirão o mesmo ciclo que os pais."

"O relógio não pára de trabalhar. Os anos sucedem-se. Mas ninguém pára para pensar o que andamos aqui todos a fazer. Por que razão aqui estamos. Por que razão fazemos o que fazemos e da forma que o fazemos. Será que foi sempre assim? Será que tem de ser assim? Será que é isto a vida?
O Homem de hoje tem tudo. E não tem nada. A evolução tecnológica é de salientar, mas a evolução metafísica é lamentável. As pessoas fazem o que fazem. Mas não sabem porque o fazem. Não questionam por que o fazem. E mais do que isso, é perigoso se alguém lhes disser isto. Serão chamados de extremistas, esquerdistas, revolucionários e outras coisas ainda piores."

"E o relógio continua a andar. No meu tempo de juventude, depois do 25 de Abril, era honroso estar na escola. Estudar era algo que era considerado importante. Lembro-me que ninguém acreditava ( no tempo do fascismo) que fosse possível que eu, um simples operário, algum dia estudasse. E tirava boas notas, ai se tirava. Os professores costumavam dizer que daria um bom escritor. Penso que era só para me dar auto-estima e afagar o ego. Ainda hoje, apesar dos 490€ que ganho como auxiliar numa escola, sou autodidacta: leio muito e vejo pouquíssima televisão. O meu professor de português ensinou-me a sentir o cheiro do papel e a formular as minhas próprias opiniões sem me deixar influenciar pelos meios de comunicação social. Sempre fiz isso. E é por isso que acho que se, no tempo do fascismo vivíamos numa ditadura, hoje vivemos numa democracia. Contraditório? Ou, pelo menos, estavam à espera de mais qualquer coisa de todo este discurso? Explicarei melhor: no tempo do Estado Novo não se podia falar em ditadura, mas o que vivíamos era uma ditadura. Hoje, podemos falar de ditadura, não podemos? E de que nos vale? Vivemos sim, deixem-me reformular, uma ditadura democrática. Agora estão com dúvidas, não é? Como é que é ditatorial e democrático ao mesmo tempo? É simples. Se um dos objectivos da democracia é a liberdade, ou melhor, as várias liberdades e a consequência das mesmas, se é a aproximação das classes sociais, então como vivemos em democracia?
Eu, que apenas sou um "contínuo", eu que fui operário, reafirmo aqui, a democracia vivi-a eu nos dois anos a seguir ao 25 de Abril, quando havia esperança, alegria e respeito. Hoje? Existe democracia: nas estatísticas, na soberania perdida e nos políticos corruptos."

"Quando falo com um marxista, fico imediatamente enojado. Como é possível alguém acreditar na luta de classes? O povo é sereno, não é? Os mercados são muito importantes e os bancos são o fundamento da minha sociedade capitalista. Não podemos fazer nada que os irrite. Não é por isto que não queremos o bem das pessoas. Que raio de ideia! É como digo, os marxistas, esses que acham que o mundo está dividido em dois lados - o deles e o nosso - são pessoas néscias e, mais do que isso, mentirosas. Querem dizer-nos que é possível a igualdade de classes? Tretas, balelas. As classes têm de existir: tem de existir o rico e o pobre. E o pobre tem de se submeter ao rico. Vê-se mesmo que os marxistas não conhecem a teoria do Darwin: teoria da evolução, hein?
O 25 de Abril não fez sentido nenhum, já que nem sequer foi feito pelo que eles chamam - o povo - mas sim pelos militares do MFA. Para não dizer que se estamos como estamos hoje, deve-se em parte ao fim das colónias. Mas, afinal, qual é o problema do colonialismo? Não temos culpa que os pretos não saibam o que é a democracia. Só fomos ensiná-los. E o problema desses marxistas com a NATO? Se fomos para a Líbia é porque esses povos inferiores não sabem o que é a democracia.
O marxismo é asqueroso. O marxismo é anti-natural. "

"Sim. Dei na escola o marxismo. Sim, também sei o que é o comunismo. E o fascismo. E o nazismo. E essas coisas todas. Se me lembro? Claro que não. Isso é só para fazer o teste e, depois, esqueçe-se tudo. Se ainda me perguntassem nomes de jogos de vídeos ou algo que se tivesse passado na "Casa dos Segredos". Agora política? Sociologia? Nem sei o que é isso. Mas passei sempre com 15 a história."

"Adoro livros. Se pudesse passar a vida a ler, era o que faria, certamente. Tipos de livros? Acho que todo o tipo, exceptuando romances ao estilo americano (casam, divorciam-se, têm filhos, etc...). Desde ciência até filosofia e história, passando pela sociologia. Tudo me agrada. Gosto de pensar. Gosto mesmo muito de pensar. Se isso me servirá para alguma coisa? Mais que não seja, anexa conhecimento ao meu conhecimento e faz com que saiba cada vez mais. Se me dá emprego? Poderia, mas para isso teríamos de viver numa meritocracia e não é bem nisso que vivemos, vivemos mais na "onda da corrupção". Os partidos do arco da governação, servindo-se das empresas privadas, da corrupção, do cacique, da manipulação dos media vão conseguindo ganhar as eleições. Se acredito na política? Sim, apenas duvido dos políticos que têm tido cargos executivos em Portugal desde o 25 de Abril. Tirando um ou outro dos governos provisórios ( como por exemplo, o Vasco Gonçalves). Não faço ideia o que vai acontecer em Portugal a seguir, mas não adivinho nada de bom. Porquê? Porque as pessoas não entendem quem fala a verdade, a verdade é algo que se tornou tão irrelevante que as pessoas não a querem, não a procuram, não a abraçam. E quem fala a verdade é, sempre, infelizmente, prejudicado."


MFG

ele passa ao teu lado

Ele passa ao teu lado
Mas tu não dás por nada.
Passas, indiferente, ao seu sofrimento
Não pensas que poderá ser este o momento.
Em que ele se encontrará com a morte
Na linha do comboio ou noutro local qualquer
E nem sabes que ele te inveja a sorte

Ele passa ao teu lado
E tu, pensas que tal nunca te acontecerá
Sentes-te então, feliz pela tua vida
Mas, não te esqueças, que nunca sabes o que virá
Não sabes se não será esse o teu fado

Ele passa ao teu lado
Lacrimejando e cheirando mal
Sentes nojo e asco e dizes para o lado:
"Pobre coitado, mas cada um escolhe o seu caminho"
E, segues, achando que sim
Até que quando chegas a casa
Percebes que o teu marido, deixou o teu filho sozinho
Fugiu, não deixou uma nota, um bilhete
Levou o recheio da casa, incluindo a fotografia do teu filho pequenino
E choras, sem saber mais o que fazer

Ele passa ao teu lado
Decides abordá-lo e pedir-lhe desculpas por nunca o teres abordado antes
E ele, olha-te docemente e diz: "É normal que não tenha confiado
Estou magro, cheiro mal e não pareço de confiança. Mas ..."
Ela abraço-o e chora de novo: "Tens um lugar para mim?"
Ele responde: " A rua é de todos, minha querida..."
"Mas, e o meu filho?"

Hoje, eles passam ao teu lado.
E tu olhas para eles com um sentimento de superioridade.

Até quando?

novembro 21, 2011

A moça (Parte I)

Apaguei o cigarro e deixei que o fumo abandonasse os meus pulmões, expirando profundamente. Olhei de novo para o céu à espera de alguma resposta às minhas milhentas questões. Não encontrei. Decidi então pedir outro bagaço ao empregado e pus-me a observar as pessoas que passavam por ali. Algumas com um ar triste, outras com um ar mais feliz. Umas iam acompanhadas e a falar de qualquer coisa que não cheguei a perceber, outras iam sozinhas inertes nos seus pensamentos ou com os auscultadores nos ouvidos e a cantarolar pela rua fora. Reparei numa rapariga, talvez com os seus 14 anos, loira, de tez branca e cabisbaixa. Quis convidá-la para se sentar comigo, mas não tive coragem. Por um lado, a moça poderia achar que tinha segundas ou, mesmo, terceiras intenções e, por outro, pelas vestes que trazia calculo que vivesse na rua. Viver na rua? Deveríamos chamar a isto viver? Ou sobreviver? Ou quase-morrer? Bebi o bagaço de um só trago e levantei-me, indo ao seu encontro. Não olhou directamente para mim, pois não olhava em frente, fitava apenas o chão sujo e asqueroso, não pela passagem dela e de outros como ela, mas pela passagem dos de colarinho-branco - esses que a sociedade nunca rejeita. Tentei abordá-la com palavras suaves e sonantes, mas concluí que não devo tê-lo feito bem, já que mal proferi as primeiras palavras, ela desatou a fugir, embatendo até contra algumas pessoas que vociferaram todo o tipo de insultos. Desisti. Voltei a sentar-me na mesa do café, tirei outro cigarro e acendi-o com o meu isqueiro preferido - o que comprei na Jamaica há uns meses - e pedi outro bagaço. Depois de o beber de um só trago, achei que era melhor ir dar uma volta pela cidade e tentei esvaziar a minha mente de todos os pensamentos. Todavia, não conseguia deixar de pensar na rapariga. Por que razão teria ela fugido? E mais do que isso, por que razão "viveria" ela na rua?
Como não encontrava respostas para as minhas questões, sentei-me num banco do jardim e tirei a erva, que tinha comprado na Baixa, do meu bolso esquerdo. Fumei. Para tentar esquecer, para não me lembrar de nada.

MFG 

novembro 04, 2011

Fim dos dogmas

Se eu pudesse pegar no indispensável e ir ao encontro de paz.

Se eu pudesse fazê-lo, sem dúvida que o faria. Preciso de paz, de equilíbrio, de calma. Nada de revoluções, nada de golpes de estado, nada de violência. Só quero reflectir, pensar em tudo, questionar tudo, pôr tudo em causa. Por uma única vez, deixa-me ser livre. Deixa-me pensar que consigo ser realmente diferente de todos os outros, que consigo atingir o grau máximo de espiritualidade. Depois podes dizer-me que estou errada, mas por agora acena afirmativamente com a cabeça e diz-me que estou certa, tão certa como nunca estive.
Eu não sei se quero mudar, se quero fugir, se quero tentar. Mas sei que quero pensar. Só um bocadinho, só mais um bocadinho. Talvez tenha sido cedo demais. Antes do que deveria ter sido. Talvez ainda faltasse sentir o coração. Talvez as vozes discordantes sejam muitas e eu não as consiga aguentar.
Se quiser mudar, vai ser difícil. É como se tivesse que nascer de novo. É como se tivesse que voltar a aprender a andar. É como se tivesse de ser eu, mas outra. Não sei se estou preparada e, se estou, não sei como sabê-lo.
É doloroso pensar que somos seres tão frágeis, sempre a pender para um lado ou para o outro e, de tão frágeis, tudo muda num segundo. Se não fosse o que se passou, talvez não se tivesse passado nada. É como se o Universo tivesse gosto em tornar a nossa vida um longo ponto de interrogação. Mais do que isso, em fazer da minha vida a instabilidade eterna.
Eu não sei. E sei que o facto de não saber já é saber qualquer coisa. Só que essa coisa que sei é a coisa que não sei se quero saber. No fundo, o problema de tudo isto é precisar de pensar, de reflectir cada vez mais. E ao fazê-lo distancio-me dos dogmas. Das verdades eternas. Das verdades inquestionáveis. E quando isto acontece, a vontade de fugir aumenta a cada dia que passa. A cada dia que passa a vontade de fugir é maior. Ai, era tão bom que pudesse agarrar-me às asas de uma ave e voar como ela ainda que por segundos para, pelo menos, conseguir experienciar a liberdade. Ainda que, por fim, caísse e morresse, teria sido feliz desprendida dos valores materiais que cegam o Homem e que o fazem morrer sem ter vivido.
Por tudo isto, o meu pensamento está em mim, mas não de forma egocêntrica ou narcisista. Eu apenas me quero conhecer, quero saber até onde posso ir, até onde consigo ir. E, se depois de descobrir isso, não mudar, é porque estava certa ainda antes de o saber.

MFG

setembro 22, 2011

escrever

Tenho saudades de escrever. Parece bizarro já que estou a fazê-lo neste preciso momento. Mas não é igual. O "meu" escrever é diferente: tornou-se mais espaçado, austero, díspare, insensato, inseguro, esporádico.  Tornou-se demasiado previsível. É por isso que tenho abandonado a escrita. Tenho-a deixado voar para que ela se torne livre novamente. Mas acho que não fui bem sucedida. Sinto-me a terminar esta viagem tão linda que durou anos. Anos em que escrevi milhares de palavras, centenas de frases, dezenas de textos. Para quê? Dantes sabia porquê, mas agora...Não sei responder a isto. E é por isto que vou, finalmente, deixar-vos voar, minhas palavras, meus amores, minhas melhores amigas. E tentar recuperar os anos perdidos. Eu mudei. E mudei muito. A vida fez-me ser assim: desconfiada, fechada, fria. Contudo, continuo a amar escrever e, não é por ter mudado, que isso mudou. Por isso, vou matar as saudades que tenho de escrever. Hoje e sempre.

Raramente me engano

Eu previ o que está a acontecer hoje, mas achei que seria desta vez que me enganava. Mas não ... Aconteceu o que eu previa e o facto é que se, de longe parecia neutral aos meus olhos, de perto se mostra como um punhal. Um enorme punhal. Pois, sei que ninguém é de ninguém, sei que não podemos fazer uma coisa e não entender que isso terá consequências, mas nunca pensei. Nunca pensei que fosse possível alguém mudar tanto, mas ao mesmo tempo parecer não ter mudado rigorosamente nada. É deveras contraditório. É estranho. Mas é a verdade. A verdade é que tenho o coração a sangrar, mas também não sei explicar porquê. Se fiz o que fiz por saber o que diziam os teus olhos, continuo a achar que dizem o mesmo mas estão presos. Presos pelas algemas daquilo que antes juraste nunca sentir. Será que sentes? Tenho algumas dúvidas sobre isso, mas como sou errónea nunca se sabe. O que me parece é que te sentes perdido. Sim, gostava imenso de te ajudar, de te ajudar a crescer verdadeiramente, mas penso que o tempo irá encarregar-se disso. Magoa-me um pouco olhar-te e não te ver. Magoa-me muito teres perdido a tua luz. Magoa-me ainda mais não poder ouvir as tuas palavras (ainda que demagogas, muitas vezes), eram as tuas palavras! E hoje são as palavras dessa espécie de coisa que achas que construiste, que achas que existe, que achas que irá durar. Não sei. Não sei nada. Acho que já houve momentos em que sabia muito, sabia demais. É isso, eu sempre soube demais. E isso sempre afastou a maioria das pessoas. Não sei se têm medo ou simplesmente incerteza e insegurança. Mas, querido, isto é possível? Tu desta forma? Sei que foi verdadeiro e superior ao que hoje pensas existir e que aquilo que hoje tens seria mais suave, mais amoroso, mais azul se fosse eu, mas ainda assim ... Tens a certeza? De certeza que é isto que queres? Sei que, orgulhoso, jamais virás chorar para ao pé de mim, mas acredita em mim ... Vais acabar por chorar. E, por mais que não goste, raramente me engano.

"És extraordinária."

MFG

junho 11, 2011

Mudar

Consigo compreender que as pessoas tenham medo: medo de mudar. Não é medo do resultado da mudança, mas da responsabilidade que mudar acarreta. É o ter de haver um esforço diário, quase sufocante, mas de uma forma delirante, é o ter de se tomar uma atitude. Mudar inclui ser livre. E ser livre inclui ser responsável. E para além disto tudo, há o porquê da mudança. Se mudarmos pelos outros, essa mudança terá duas graves falhas: O valor demasiado alto que damos à opinião dos outros e a falta de valorização de nós próprios. Para mudar é preciso querer mudar, mas querer mudar para se sentir melhor consigo própria e não para ser aceite pelos outros. Antes de ser aceite pelos outros, tem de se aceitar a si próprio. É este o segredo da felicidade. Não vem escrito num livro conceituado e guardado há séculos, nem vem na forma de elixir da imortalidade, vem na forma da palavra, como tudo o que existe, vem na forma da palavra. E é por isto que importa nunca esquecer que, se estamos aqui, neste mundo, estamos cá para sermos felizes, estamos cá para tirarmos o máximo proveito desta vida, sem nunca ir contra os nossos valores e o nosso cáracter. É difícil mudar, porque mudar faz com que tenhamos perguntas todos os dias às quais teremos, inevitavelmente, de responder, pois ninguém o poderá fazer por nós, mas vale a pena. Vale a pena por que vamos conhecer quem somos, testar os nossos limites, ser melhores pessoas do que antes e, finalmente, não ter, mas ser a felicidade com que sempre sonhámos.

MFG

abril 16, 2011

A vida

A vida é muito mais do que aquilo que tu vês. A vida revela-se sempre que parece esconder-se, refugiar-se num outro local qualquer. A vida é isto, mas o que é isto?

a sociedade

Vivo numa sociedade distinta daquela que idealizo.
Na sociedade que idealizo existem valores e esses valores estão acima de tudo. Acima do dinheiro, do poder, da inveja, da mágoa, da incerteza, do desdém. Esses valores não são valores materiais, pois esses são supérfluos; também não são valores palpáveis, pois tudo aquilo em que se pode tocar é pouco para aquilo que eu imagino; esses valores não são substituíveis, pois eles me dignificam como ser humano; esses valores não são criticáveis, pois eles são a justiça e a verdade e a beleza.
Na sociedade em que vivo, existe muita coisa que se encontra acima dos valores, estes valores de que falo, poderemos chamar-lhes valores metafísicos. Não por serem abstractos ou irrealizáveis, mas por serem "meta", por estarem entre a realidade e a ilusão, entre o possível e o impossível ( ou apenas, pouco provável), por, no fim de tudo, serem o caminho para a realização absoluta do ser humano. Na sociedade em que vivo e em que vou crescendo, dia a dia, passo a passo, é mais importante o lugar que as pessoas ocupam nas instituições do que propriamente o lugar que as pessoas ocupam no coração uns dos outros. E é mais importante o que os outros, aqueles que poderão ser uma mais-valia no futuro, pensam de nós, do que propriamente aquilo que somos na realidade, aquilo que a maquilhagem não consegue mascarar, aquilo que uma camisa mais bonita jamais conseguirá esconder.
Na sociedade que idealizo, não existe racismo ou homofobia, não existe discriminação de qualquer espécie, não existe ódio por que motivo seja. Nessa sociedade, os seres humanos atingiram um tal estado de cidadania e de racionalidade que lhes é possível aglomerar a razão e a emoção sem que isso lhes confunda a personalidade. Nessa sociedade, a natureza é parte integrante da vida, da vida de todos os dias, dando mais vida a essa mesma vida. Nessa sociedade, não há injustiça pois o homem se terá apercebido da possibilidade da sua ausência através do estado superior a que esse mesmo homem terá chegado. Com a ajuda da instrução, da informação, da cultura, do saber, o ser humano terá percebido que é possível a construção de uma sociedade nova, uma sociedade sem explorados nem exploradores, uma sociedade em que signifique muito mais o que se é, em detrimento daquilo que se tem, daquilo que se possui.
Todavia, na sociedade em que vivo, sociedade cheia de contradições, observo todos os dias o oposto do que desejo: desde exploração a injustiças, passando pela corrupção até à falta de respeito pela diferença. A sociedade onde vivo é decadente, está putrefacta e morreu da sua própria doença: o desejo desenfreado por mais capital, por mais dinheiro, por mais poder. É preciso uma sociedade nova, claro que é preciso uma sociedade nova!
Contudo, faço uma pergunta: Estaremos todos disponíveis para, luta a luta, passo a passo, grito a grito, construir uma sociedade nova, uma sociedade que dignifique o ser humano, uma sociedade a que eu tenha orgulho de pertencer?
Eu estou! Sempre pronta para a luta, dê lá por onde der, quer caia quer esteja levantada, estou pronta. E tu?

março 18, 2011

Passou por mim e sorriu (Deolinda)

Ele passou por mim e sorriu,
e a chuva parou de cair,
o meu bairro feio tornou-se perfeito,
e o monte de entulho, um jardim.
O charco inquinado voltou a ser lago,
e o peixe ao contrário virou.
Do esgoto empestado saiu perfumado
um rio de nenúfares em flor.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

No metro, enlatados, corpos apertados
suspiram ao ver-me entrar.
Sem pressas que há tempo,
dá gosto o momento,
e tudo mais pode esperar.

O puto do cão com seu acordeão,
põe toda a gente a dançar,
e baila o ladrão,
com o polícia p'la mão,
esvoaçam confetis no ar.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!


Há portas abertas e ruas cobertas
de enfeites de festas sem fim,
e por todo o lado, ouvido e dançado,
o fado é cantado a rir.

E aqueles que vejo, que abraço e que beijo,
falam já meio a sonhar,
se o mundo deu nisto e bastou um sorriso,
o que será se ele me falar.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

o mal do mundo

O mal do mundo não é nem o dinheiro nem o poder, mas sim os segredos. O que passa do que fica. O que todos escondem e nunca mostram. O que nos magoa e não conseguimos explicar. O mal do mundo é falarmos tanto e nunca conseguirmos dizer o que realmente importa. Algo como por exemplo: odeio-te, amo-te ou não sei o que sinto por ti. E pior do que não podermos ou conseguirmos dizer o que sentimos, é o mundo não nos deixar, é o mundo enviar-nos um sinal claro, explícito, óbvio de que, se arriscarmos, vamos inevitavelmente, perder. E não vamos perder nem dinheiro nem poder, mas sim mais um pouco do nosso coração que, em cada batida, vai passar a bater menos do que antes, que em cada momento, vai passar a doer mais do que antes, que em cada amor, vai amar menos do que antes. E por perdermos só isto, vamos perder tudo. Quem nos dera que o mal do mundo fosse só o dinheiro e o poder. Talvez a palavra conseguisse suplantá-los, ultrapassá-los, miná-los, suprimi-los. Talvez a palavra certa, dita no momento certo, seguida do acto certo, salvasse o mundo do estado a que ele chegou.

o ruído

Começa tudo com uma conversa perdida por entre o tempo, perdida por entre a chuva que cai e o vento gélido que sopra. No início, só consigo ouvir um ruído dentro de mim, uma raiva crescente, uma mágoa permanente. É como se o mundo me controlasse e eu detivesse em mim todos os seus desvarios. Começa tudo por um desacordo, a falta de mútuo acordo, a ausência de um "sim" em uníssono.
Enquanto tudo se vai passando, surge em mim um pensamento interior, vindo não sei bem de onde, mas julgo que do fundo do peito, que me vem perguntar o que ainda faço aqui. Que me vem questionar. Que vem deixar-me extremamente confusa.
Sei o seu propósito e sei que é esse o pensamento que é verdadeiro. Mas também sei que o facto de ser verdade não o torna possível. O facto de me sentir assim não faz com que o mundo me queira de outra forma. Pelo menos, não me quererá da forma superior. Aquela: a extasiante.
No fim, fica tudo igual. Fica tudo no sítio donde partiu, excepção feita à dor no fundo do meu peito que não sucumbiu perante a voz do universo. Que não quis desistir daquilo em que acredita.
Mas, no fundo do meu peito, eu sei. Um dia, vai deixar de haver início, porque simplesmente vou calar a minha voz, inseri-la no vazio tal e qual pássaro emudecido, vou pedir ao mundo que me deixe ser feliz. Que me deixe ser finalmente feliz. 

fevereiro 27, 2011

A mudança

Queria mudar-me para dentro de ti. Sentir o que tu sentes ( se é que sentes alguma coisa). Pensar o que tu pensas, como tu pensas. Reviver o que tu revives quando olhas pela janela do teu quarto. Talvez assim conseguisse entender quem é a tua alma e por que razão deixaste de a amar.( Ou talvez nunca a tenhas amado). Se me deixasses mudar para dentro de ti, talvez pudesse reconstruir-te. Tenho tanto carinho e amor para o fazer que, talvez resultasse. Todavia, ainda que não resultasse, poderia fazer com que te esquecesses de tudo, como por magia. E tudo voltaria a ser como dantes. Mas.. Se me deixasses viver dentro de ti, ainda que provisoriamente, talvez nada voltasse a ser como dantes. E não existe coisa que eu mais queira.


As máscaras só nos escondem dos outros, nunca de nós próprios.



A morte

Quando nascemos deviam avisar-nos o que é a vida. Dar-nos uma palestra de duas ou três horas em que, resumidamente, nos falavam do amor, do sexo, da morte, das gravidezes indesejadas, da droga, do álcool, das amizades, das dores, das frustações, mas também da felicidade, da motivação, do entusiasmo, da paixão, da loucura, dos momentos que não iremos esquecer.
Evitar-se-ia o medo, a dor, a ausência de respostas, a amargura, a paixão desmedida.

Se quando nascemos, nos ensinassem a realidade do mundo, a verdade da vida, a inevitabilidade da morte, a crueza do amor não correspondido, tudo seria mais simples. Já não tinhamos de chorar, já não tinhamos de saber o que é o vazio depois do fim de um grande amor, já não precisavamos de sofrer.
Se, quando eu nasci, me tivessem ensinado que as pessoas que mais amo iriam morrer, eu voltaria para dentro da bolha em que estive nove meses. Se me tivessem dito que algumas pessoas iriam detestar-me e querer a minha morte, eu preferia ter-lhes feito logo a vontade. Se me tivessem dito que iria amar alguém de uma forma imensa para depois tudo acabar, eu preferia nunca ter amado. Se me tivessem avisado que eu ia perder o teu abraço, eu preferia nunca o ter sentido. Se me tivessem descrito a beleza do sol e que eu iria senti-lo para depois o perder, provavelmente, mais cedo do que achava, eu preferia nunca ter sentido o seu calor. Se me tivessem avisado que ia viver para morrer e não o oposto, eu preferia ter feito logo tudo de uma vez.
De que me serve ser feliz ou ser triste se quando morrer não irei ser nada? Ou pior que isso, não sei o que serei, se serei, quem serei, como o serei...

"Apenas espero que não vás já. Que não vás nunca. E que se e quando fores, me dês a mão, porque isto não é vida sem ti"

MFG

fevereiro 15, 2011

Don't know

Não sei o que esperam de mim. Se esperam que seja como a sombra que os segue todos os dias, bem podem esperar pois isso não vai acontecer. Se esperam que lhes acene afirmativamente, bem podem esperar pois isso também não vai acontecer. O facto é que não acredito neles. Não acredito, não vejo bondade nos seus olhos, nem amizade nas suas palavras. Só vejo falta de escrúpulos e prontidão para afastar de si a lealdade e abraçar a traição sem sequer soltarem um soluço ou uma dúvida os tomar. É como que o poder seja imperioso e superior à humanidade, à humanização dos momentos. É tal e qual o momento que se segue ao momento que passa por nós sem se passar. É um momento em que os olhos fitam o infinito e em que eles não ouvem nada em seu redor. É impressionante. Impressiona-me esta falta de discernimento que tem o sol em não nascer para todos. Que tem o mar em só ser inatingível para alguns. É esta a questão: eu sempre disse que o melhor que tinham a fazer era nada esperarem de mim. Nada falarem sobre mim. Não fazerem comentários sobre o que eu era, quem eu era e o que eu seria se pudesse sê-lo. Deveriam falar sim sobre o que eles são, quem eles são e o que eles nunca seriam ainda que pudessem sê-lo. E assim, o mundo seria bem mais equilibrado.
Eu gostava de entender o que vai na alma de quem, fazendo força para subir mais um degrau, a desfaz em pedaços, e ainda se impulsiona nela para continuar até não existirem mais degraus para subir. E aí não tenho dúvidas: desistir daquilo em que não se acredita, não é desistir, é seguir em frente.

MFG

fevereiro 04, 2011

A metafísica, Pai!

Quanto mais se adia falar do que nos consome por dentro, maior parece essa dor. Isso passa-se porque intoxicamos o coração com amargura e solidão, com dúvidas e incertezas. Intoxicamos o único local que deveríamos conservar puro, neutro, límpido. O único local que é suposto ser a nossa fonte de equilíbrio. E intoxicamo-lo por sermos estes seres tão erróneos, pois todos os dias desejamos o que não temos e não queremos o que temos. A verdadeira razão pela qual o nosso coração sofre de toxicidade elevada nada tem a ver com a ciência, mas sim com a metafísica. Sei que não queres que a mencione, pai. Sei que não acreditas nisto, mas é assim. A metafísica é a única capaz de explicar o que se passa com todos nós. É simples, mas mais complexo do que qualquer doença física. Por um lado, criticamos o que nos rodeia, mas , por outro, nada fazemos para o alterar. Para além disso, não damos valor ao que temos, mas conseguimos olhar a vida dos outros e desejá-la. Desejamo-la porque o nosso peito já tem pouco de puro, mas, por diversos factores, não nos levantamos do sofá para alterar o facto que nos faz ser menos felizes.
Somos assim, porque, mantemos a dor calada. E como a mantemos calada é como se não existisse. Só que, no dia-a-dia, no quotidiano que passa rápido, que celeremente nos consome, a voz do peito fala sempre mais alto. Fala quando vemos um casal apaixonado. Fala quando nos lembramos da nossa infância tão feliz. Fala quando sentimos o cheiro daquele perfume especial na pessoa errada. Fala quando lemos aquele pedaço de papel, já amarelo do tempo, onde se escondem os sentimentos passados. Fala sempre que, de uma ou de outra forma, o coração lateja por entre as lembraças ou os desejos ainda por resolver.
E é por isso que te tinha de falar de metafísica, meu pai. Não queria ser racional neste meu pensamento, achei que era injusto para com a importância do coração. O coração puro, neutro, límpido. E mais do que tudo isto, claro, transparente. Eu só acredito em algo, como tu sabes, quando vejo transparência nos actos. Pois essa transparência evidencia um coração puro.
E era disto tudo que te queria falar e acabei por não te dizer nada de especial, pai. Só queria dizer que temos todos que nos libertar destas amarras que nos encarceram, temos todos que conseguir ver mais longe, temos todos que acreditar no nosso coração e tratá-lo bem. No fundo, o que quis dizer foi que te amo e amo-me por te amar e ainda mais do que isso, amo-te por me teres feito acreditar no coração, na sua força, na sua verdade e até mesmo por existires para eu te poder amar. O que quis dizer foi que só espero que todos venham, um dia, a sentir o que eu sinto. A viver o que eu vivo. A ser o que eu sou.
Seremos sempre coração e pensamento. Pensamento e coração. O eterno e perfeito encaixe.

MFG

janeiro 25, 2011

A dor

Às vezes custa ajudar. Dói no fundo do peito perder os que amamos para quem eles amam realmente.

janeiro 21, 2011

Não faças promessas

No silêncio todo o som é alto.
Na confusão, por mais alto que seja, é baixo.
Como o coração quando grita em silêncio, não é ouvido da mesma forma que o grito na multidão.

Por favor, promete-me amor eterno hoje.
Deixar-te-ei odiares-me amanhã.
Por favor, promete-me só mais uma palavra.
Poderás ser silêncio amanhã.
Por favor, promete-me a estrela mais longínqua da galáxia.
Amanhã poderás tirá-la dos meus braços.
Promete que não farás mais promessas até que aprofundes tanto o teu ser em mim que eu própria serei a promessa:
A promessa da terra perdida, do segredo por desvendar, do céu por descobrir.
E tu serás mais uma esquina, um passo, uma estrada, neste meu mundo, que de tão complexo, já não me completa.

MFG

janeiro 16, 2011

Afinal é verdade

Contra todas as previsões, afinal é verdade. É verdade, eu apenas ainda não me tinha apercebido de tal. Mas é unidirecional. É só daqui para lá, e não de lá para cá. Não há problema, tenho mais abraços para dar. Não há problema, há mais canções para cantar. Não faz mal, há mais batidas para dançar. Não há problema, porque é diferente, e por ser diferente, vai acabar por sobressair de outra forma.
É a primeira vez que não tento mudar a realidade, sei que ela é por si. E é por ser por si própria que não a tento alterar. Não mudará e eu não quero que ela mude. Sinto-me com falta de mim própria, mas, no entanto, tão cheia de mim mesma. Talvez se chame a isto maturidade. Ou então o fim da rebeldia.
Não sei como chegar a esta realidade que me atinge. A sua existência quebra-me a minha essência e, por isso, soo sempre a fim, a não realização, à ausência de lá chegar.
E é complicado avistar uma realidade diferente, pois parecem todas muito semelhantes. Muito iguais. Só que, talvez esta seja diferente demais. Diferente da realidade que gostaria de poder incorporar já. Agora. Neste momento. Ou então é a minha cabeça a fingir que sabe ser o meu coração e o meu coração a comportar-se como se fosse a minha cabeça. E eu a segui-los nesta encruzilhada e a perder-me de novo, ficando mais perdida do que no início de tudo. Perdida porque finalmente me encontrei. Mas, no entanto, não me consigo encontrar em ti.

MFG

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