junho 26, 2010

Um esquilo

Sem mais delongas, o silêncio. O imperturbável silêncio. O eterno silêncio. Ela estava novamente sozinha. Mas sentia-se acompanhada pelo chilrear dos passáros e pelo embater das folhas da oliveira umas nas outras. À sua volta, a vida continuava a passar. Passava sem tomar conta da sua dor, da sua mágoa que a levava a querer incorporar em si a tranquilidade de tudo o que é irracional. De tudo o que é natureza na mais pura ascensão da palavra.
Ouviu um barulho vindo de cima de uma árvore. Virou-se para tentar perceber do que se tratava. Entretanto, o horizonte parecia ter-se colorido como uma tela, como que por magia. Afinal o barulho não era nada de perigoso nem nada que atentasse contra a sua liberdade: era o som de um esquilo. Um lindo esquilo. Um simples esquilo. Um irracional esquilo.
E, durante largos minutos, deitou-se, tendo sempre o horizonte em linha de conta, fechou os olhos e desejou ser aquele esquilo por apenas uns intermináveis segundos. Ela sabia que só o ser humano se desilude, porque também é só o ser humano que tem a faculdade de se iludir. E era tão mais fácil se pudesse ser a oliveira, ou uma folha da oliveira, ou uma célula da folha da oliveira, ou um pequeno corpúsculo da célula da folha da oliveira. Tudo, excepto si própria. Excepto a racionalidade que encerrava em si um silêncio interminável. Que, infelizmente, nada parecia perturbar.

Palavras de nada valem se não se fazem acompanhar de actos. No entanto, os actos valem tudo sem palavras, sem construções falseadas que soam bem ao ouvido mas são hipocrisia para o coração.
MFG

junho 23, 2010

o amor

O amor é um total fingimento. Parte de um fingimento. Dura porque é, na verdade, um grande e exasperante fingimento. Eleva-se como verdade pura e eterna quando é um mero fingimento e também dotado de tal efemeridade que quando não se sofre por ausência, sofre-se por presença. Não me incomoda assumir que
sofro metodicamente por saber que o sofrimento é ambíguo e, por isso, cheio de contradições. Não acredito na paixão, não. Assumo peremptoriamente que não acredito na paixão. Não acredito porque me soa a piano com voz de guitarra ou a melodia combinada com o ribombear dos tambores díspares da emoção e da razão. É-me impossível crer na paixão se a sei finita. Como me é impossível crer no amor porque só conheço um tipo de amor-real: o amor que não prende, o amor que aceita a diferença, o amor que recebe e dá sabendo bem por que razão o faz. Não acredito no amor, no outro-amor-cujo-nome-prefiro-não-pronunciar, no outro amor que se apodera da outra pessoa, no outro amor que resvala perante nós sem se deter perante tamanha inocência. É imprudente afastar-me desta (ir)realidade pois nela me encontro, pois sou igual ao comum dos mortais. Mas o meu desejo é oposto a isto. O meu desejo é nunca mais me apaixonar por ninguém, mas saber dentro de mim que amo aquele Ser, não pelo seu aspecto físico, não pelo que ele/ela me lembra, não pelas palavras lindas que me diz, mas pelo que é. Não pela representação que tenho dele/dela , mas pelo quanto ele/ela acrescenta aos meus defeitos.

MFG

minha solidão

Imaginar que o infinito sempre foi a nossa finitude. O alcance do mistério das coisas. Sempre a pensarmos que barreira iríamos ultrapassar a seguir. Que verdade iríamos agarrar e levantar aos céus em seguida.

Minha solidão, onde não existe traição.

 

junho 21, 2010

Saramago


Tudo altera tudo. Um momento pode fazer toda e nenhuma diferença. Um olhar. Um simples olhar pode mudar o mundo que, ironicamente, se mantém o mesmo.
O som. O som de uma guitarra. Igual ao som do sonho quando é sonhado. O som de teu pai. O som de teu pai, analogamente comparado ao som do que tu és por dentro.
A árvore. A árvore frondosa de tua companhia. E a tua companhia alterada pelo olhar puro que vem dali de fora.
Tudo alterava tudo. Um momento fazia a diferença. Um sorriso. Um ténue sorriso mudava o teu mundo que, por isso, em tudo mudava. O toque. O toque de um prado verde donde brota o mundo e, onde te acabaste por deitar. Mas nunca perecer. Morrer em ti, é nunca perecer.
Tudo irá alterar tudo. O passado é presente a passear-se. É voz que fica. Toque que se vai. É acreditar veementemente que o génio é a filosofia que faz da vida mais do que ela é. É acreditar que és mais alto do que eu. É acreditar no que acredito com ainda mais força. Nada havia em ti, que não haja agora ainda mais engrandecido.
Nada muda tudo. E este tudo nada é em ti. O tudo és tu. Tu, que nunca te calaste. Tu, que nunca deixaste de ouvir. Tu, só tu, que ensinaste como o som, o toque, a tinta que fricciona a folha de papel, é a árvore onde nasceste e a árvore onde foste morrer.

Orgulho de te poder ler ainda que sem te ter lido.
Saramago, para sempre!

MFG

junho 08, 2010

Not anymore

 A César o que é de César

Não quero nada alheio em minha posse. Não quero momentos dos outros em mim como se tivessem sido vividos. Não quero beijos dos outros na minha bochecha nem abraços dos outros nos meus braços. Não quero sentir o teu afago nos braços de outra pessoa. Não quero as histórias dos outros contadas por mim. Não quero verdades que não me pertencem. Não quero essências que não são minhas. E, desculpa, não te quero a ti. A César o que é de César e tu já não és minha.



MFG

Seguidores