agosto 23, 2012

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Não sei se estou acordada ou se estou a sonhar. Existo. Sei que existo porque me sinto, porque me oiço - oiço tudo o que se passa aqui na minha mente, todas as palavras que escolho não pronunciar com a minha boca - , porque me cheiro, porque me vejo ao espelho, porque sinto os meus pés a tocarem o chão e as minhas mãos na chávena quente. Mas existirei sem ser fisicamente? A consciência de mim própria, da minha própria existência, assombra-me dia após dia. E se eu não existir metafisicamente? Se dentro de mim não houver nada de abstracto e tudo for tão concreto como a chuva a escorregar-me pela face abaixo - aquela chuva, aquela lágrima, aquele choro - ou como o sol que me queima o braço que encosto à janela do autocarro? E se estiver destinada ao questionamento eterno? E se vier a descobrir que, pensando ter existido, pensando ter criado uma história,um caminho, um trilho, um desenrolar de momentos, não tiver, afinal, criado absolutamente nada? E se tudo já estivesse destinado à partida e eu não passasse - como todos nós - de uma marioneta controlada por uma força superior a mim?
 
Talvez esteja a sonhar. Mas a sonhar acordada. De dia. Ou então de noite. Só sei que não estou aqui, eu nunca estou aqui. Quero sentir-me perdida para de novo me encontrar. Mas perdida como? Perdida do quê? Desprovida de quem? De que força? De que forças? Quero compreensão sem que eu própria me compreenda. Aquilo que me inquieta é tão grande, tão imenso, tão abrangente que quando dito, quando verbalizado, se torna uma gota, uma pequenina gota que, pouco a pouco, se vai evaporando. Fora de mim. Dentro de mim, há um oceano, o maior oceano de todos. Dentro de mim, existo eu. Só eu. Única e exclusivamente eu.
 
MFG

agosto 15, 2012

Cascata


Sento-me perto da cascata – uma cascata qualquer desde que seja bela, imponente e límpida – e cruzo as pernas. Aproximo a minha mão esquerda da mão direita e deixo-as cair no meu colo, posicionando-as de forma a que os dedos indicadores apontem para o meu umbigo – o centro energético do meu corpo, o que resta do cordão umbilical, o mais perto do que um dia fui. Endireito a coluna, semicerro os olhos e penso em tudo o que me aconteceu até aqui – como vim aqui parar? Quem sou eu? Quem fui? Como fui essa pessoa? Porque já não sou essa pessoa? -, penso especificamente no que me aconteceu hoje – Será que devia ter pedido desculpa e não pedi? Será que devia ter escolhido outra palavra? Será que a magoei? Poderia ter sido mais compreensiva com os outros ou mesmo comigo própria? -, penso no que poderei vir a ser – Será que vou atingir os meus objectivos? Será que vou ser sempre feliz? O que é ser feliz? Vou acabar como todos os outros: frios, insensíveis, mortos que se limitam a sobreviver? – e, por fim, recordo as palavras do meu instrutor, do meu amigo Salvador: «Ouve, querida, tens de relaxar. Como se não houvesse passado ou futuro, mas apenas presente. Contudo, mesmo o presente é um presente do qual te distancias – o que há de mal é só o que há de mal, nada mais. Faz o exercício da respiração como te ensinei: inspiras, expiras, inspiras, expiras.»

Estas palavras fazem sempre com que pense na quantidade de vezes que respiramos durante as 24 horas que compõem um dia e como não prestamos atenção nenhuma a isso. Como é que não nos sentamos, tentamos esquecer tudo à nossa volta e olhamos para dentro de nós próprios, tendo a perfeita noção do funcionamento dos nossos órgãos, da estrutura do nosso corpo, da profundidade da nossa alma, do nosso “Eu”? Como é possível que passemos a vida a correr – sem saber bem para onde – e não nos sentemos no banco do jardim a apreciar uma árvore, uma pedra, um cão, um pedaço de terra, o simples gesto bondoso de um velho que dá a mão ao seu neto? Que andamos a fazer aqui, afinal?

Oiço a água a correr na cascata. É como se me ouvisse a mim própria, os meus pensamentos correm uns atrás dos outros - «não chegues tarde», «deixa-me em paz», «já te disse que não vou voltar atrás», «não é aquilo que parece, a sério», «já te tinha avisado que não era assim que se fazia isso», «é impressionante o quão burra consegues ser» -, sem cessar, sem me dar tréguas. Quero que parem, quero que acabem, mas não - «Deixa os pensamentos passarem, com calma, lentamente, sem pressas. Lembra-te: o mais importante é que em ti tudo seja natural e nada seja imposto.», sussurra o Salvador aos meus ouvidos como se fosse um espírito, como se eu e ele comunicássemos por telepatia.

Volto a tentar. Sinto todo o meu corpo a adormecer, é como se fosse uma sensação de formigueiro em todo o meu corpo – sabem aquela sensação de quando são abraçados pela pessoa que amam? É isso que se sente um pouco antes de se atingir o nirvana -, deixo de ouvir o barulho límpido da água e só oiço o silêncio, o som mais puro, mais belo de todo o Universo: o som da Mãe, a Terra-Mãe que nos pariu, o som do Pai, o som do Pai que amou a Mãe, o som do Amor, o som da Paz. Sinto a minha respiração, sinto-a em todo o meu corpo, não quero sair daqui, quero estar aqui, ficar aqui, não quero abrir mais os olhos. Quero cegar. Ficar cega aqui – com o som silencioso da água, respirando com a consciência plena de que o faço, sem medo do futuro, sem o peso do passado ou a ânsia do presente -, ficar cega aqui e abraçar todo o Universo de uma só vez. Estar aqui – comigo -, estar aqui – contigo -, estar aqui – convosco -, cega, surda, muda. Sem sentidos, mas com todos eles tão apurados que, finalmente, sei o que é a felicidade. Pura.

MFG

agosto 10, 2012

cão ladra

O cão ladra. Eu sorrio. Nunca percebi porquê, mas de facto o ladrar dos cães faz-me sorrir. Acho-os semi-deuses, se é que isso existe. Ou mesmo deuses, caso existam semi-deuses. Parecem-me puros, inocentes, ingénuos. Anjos sem forma humana, sem qualquer forma humana. E a maneira como abanam a cauda quando estão contentes? Podemos saber que estão contentes. No caso do ser humano, um sorriso pode ser falso, uma gargalhada irónica, mas o abanar da cauda de um cão? Sempre verdadeiro. E aquele brilho no olhar que parece ter sido polido só para nós, só para ser olhado? Os olhos são o espelho da alma, mas só nos cães. Os seres humanos estão munidos da arte de enganar. Da capacidade de falsificar emoções. Vejam lá que até conseguem fingir que estão a chorar? Basta fixar um ponto e lá caem lágrimas como se de tristeza ou angústia se tratasse. Os cães? Os cães não. Quando os ouves ganir, é porque estão a sofrer. Eles não sabem fingir. Como o saberiam? São animais de instintos, mas instintos naturais. E, como tudo o que é natural, é verdadeiro, os cães são sempre aquilo que são. Lambem-nos as pernas se nos amam. Mordem-nos os braços se tentamos fazer mal a quem eles amam. E as pessoas? Amam, sequer? Fingem que amam? Sabem o que é amar? E quando parecem gostar de nós, gostam? Ou só estão a fazer parte de uma peça de teatro? Quando perde o dono, o cão pode morrer de saudades. Aliás, morre muitas vezes de saudades. Ouve-se o som angustiante do seu choro, um choro tão sentido que aperta o peito. Deixa de abanar a cauda. Deixa de comer. Deixa de saltar e brincar com a bola preta e branca. Deixa de ter os olhos brilhantes e "pedir" comida encostando a cabeça nos nossos joelhos. Um cão morre quando o dono morre, quando alguém que ama morre. E uma pessoa? Não. É por isto tudo que sempre que o cão ladra, eu sorrio.

MFG

agosto 09, 2012

Que é que isso tem?

«Esta dor é tão profunda. É uma dor que me acompanha há uma década. É a dor da perda da inocência ou então da chapada nessa mesma inocência. É como se a minha infância tivesse morrido. Como se a minha pré-adolescência tivesse sido adiada. É verdade que podia ter-me queixado, podia ter contado, podia ter gritado, mas não. Preferi calar esta dor por variados motivos: em primeiro lugar, não queria magoar ninguém, achava que podia sair magoada sozinha, não importava; em segundo lugar, não queria aumentar a guerra que sabia que iria começar futuramente; em terceiro lugar, acreditava que era culpa minha, que era normal, que eu merecia aquilo. Foi por isso que, a certa altura, achava que tinha conversas telepáticas com o meu tio. Não tinha, mas precisava tanto que alguém me ouvisse, que alguém soubesse ler o meu silêncio, os meus olhares de medo, os meus olhares de terror. Ninguém conseguiu fazê-lo. Acho que nunca ninguém me compreendeu realmente. Totalmente. Isso torna esta dor ainda mais profunda. Cada vez mais profunda, apesar de já ter passado tanto tempo. Considero-me hipócrita, falsa. Afinal vivo aqui. Estou aqui. Preocupo-me. Tento ajudar-te. Mesmo depois de me teres tirado a inocência. E de o teres feito sem problemas, sem remorsos. «Mas somos irmãos.» , dizia eu. «Que é que isso tem?» - gritavas. Mas tem, tem muita coisa. Tem que fizeste de mim o que sou hoje. Tem que sofro todos os dias com isto. Tem que sempre que olho nos teus olhos, sinto medo. Como sinto medo quando gritas ou me agarras no braço de forma violenta. Quando me bates ou quando tentas impor-me o teu pensamento. Eu sofro todos os dias. Sofro por ter sofrido. Sofro por não ter tido ninguém comigo. Sofro porque tu mataste a minha infância. Sim, aquela infância que podia ter sido cor-de-rosa, com borboletas e nuvens feitas de algodão. Sim, aquela infância que podia ter sido jogos, brincadeiras, corridas, quedas e joelhos doridos. A minha infância foi uma infância de gritos, ameaças, sussurros. Foi uma infância de dor, dor tão profunda que não conseguia explicar a ninguém por que razão me sentia daquela forma. Eu achava que era assim com toda a gente, com todos os irmãos. Eu achava que era normal, tu dizias que era, que não tinha mal. Mas eu sentia nojo. E dor. E apetecia-me vomitar, morrer, sair, fugir.
Apesar de tudo, sobrevivi. Mas não esqueço, nunca esqueci. Nunca hei-de esquecer. Sinto que quanto mais tempo passa, maior é esta dor que me dilareça o peito. Como é possível ainda te desejar tão bem? E querer que sejas feliz? Depois de todo o mal que me fizeste, depois de toda a dor, depois de todos os gritos, depois de tudo isso, como é possível querer-te bem?»

- Como se sentiu ao escrever esta carta, Tânia? - questiona Ana, a psicóloga, enquanto lhe devolve a folha de papel.
- Senti-me ... senti-me como se não merecesse ser amada. Senti-me como se cada vez fosse mais complicado entender-me e essencialmente sentir que mereço o amor de quem quer que seja.
- Mas você já entendeu que nada disto é culpa sua, certo? - Ana estende a mão à espera da mão de Tânia que nunca chega. Tânia baixa a cabeça e fita o chão branco.
- Eu sei que não é. Mas, por vezes, sinto-me tão triste que me pergunto se, afinal de contas, não serei má pessoa. É que eu desejo bem a alguém que só me deu coisas más. Isso faz sequer sentido?
- Querida, oiça. Nem tudo na vida tem necessariamente de fazer sentido. Você tem um coração muito grande, de ouro diria a sabedoria popular. Você não consegue cultivar o ódio dentro de si porque só tem amor para dar. De certa forma tem pena dele, eu sei. Sente até compaixão, pois acha que ele nunca vai conhecer a verdadeira felicidade, certo? Nunca será verdadeiramente feliz.
- Acho que é isso, sim. Não sinto ódio por ele, é verdade. Aliás não sinto isso por ninguém. Acho que odiar só nos faz mal. E eu tento, todos os dias, sentir-me melhor comigo própria. Mas e à noite, como faço? Sempre que deito a cabeça na almofada, sinto uma dor imensa, um arrepio, um medo que me corta, que me despedaça. Sempre que oiço o ressonar dele, fico aflita. E quando entro no quarto e o apanho em cenas que não desejo, sinto-me doente, apetece-me vomitar e morrer ali mesmo. Só me apetece ... sei lá ... só me apetece... - Tânia não aguentava tanto choro contido e acabou por, apesar de não querer, se agarrar à psicóloga que lhe cobrava imenso dinheiro à hora, a chorar. A soluçar.
- Só lhe apetece ser feliz, eu sei. - Ana retribuiu o abraço e deixou que Tânia chorasse até se cansar. Depois falariam dos problemas existenciais que assolavam a jovem mulher.

MFG

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