Calmamente, ela entra no quarto. Liga o rádio na estação que a faz sentir bem. Desce os estores e abre uma fresta da janela. Entra um pouco de ar fresco que a envolve e a faz fechar os olhos. Sente-se diferente, mais madura. Mas, mais inocente. Enquanto pensa como é possível que, com o passar dos anos, vá sentindo menos o peso da idade, sente-o ao de leve. Sabe que entrou no quarto e até aposta que pôs aquele perfume
que ela houvera elogiado. É que a fragrância faz-lhe lembrar do futuro, é por isso que gosta tanto dela..
Ouve-o a dizer palavras feitas de silêncio. Sabe que caminha na sua direcção com a leveza de uma pluma. Com a vontade de a ter só para ele . Fá-la feliz. É única, é isso. Para ele, ela é única.
Mais uma rajada de vento, desta vez um pouco mais ríspida do que a anterior.
Ele pára. Ela roda sobre os calcanhares, mas desiste a meio e fica de lado para ele.
Vê-a de perfil e ela sabe que ele
a acha ainda mais bonita assim. (Já mo disseste, lembraste? Pois não lembras, li-te no olhar.)
Recomeça a caminhar de encontro a ela com
mais vigor e ela sente-se nervosa. Está a olhar
para as suas mãos que o guiam sempre, que o tocam com carinho e desejo. Está a pensar nos arrepios que lhe causa quando os seus lábios
tocam o seu corpo. E a sua alma está
ansiosa por a consumir, por se inebriar na dela.
De repente, ela sente uma rajada de vento ainda maior e treme de frio. A janela bate e faz um barulho estrondoso. Ele dá um salto e abraça-a . Ela olha-o nos olhos. E
vê o mundo. A sua mão esquerda escorrega pelas costas dela e ela sabe que amá-lo é a escolha certa. Ele fecha a janela com a sua mão, a mão que está livre.
Ele pára . Mexe os lábios como que a desejar dizer algo, mas ela não deixa. Tapa-lhe a boca com um beijo. Absorve as suas palavras com a sua alma. E ele, pega-a ao colo e põe-na em cima da cama devagar. Sem pressas. (Somos só nós os dois. O
Mundo morreu.)
Beija-a, ela beija-o. Toca-lhe como nunca ninguém ousou tocá-la. E olha-a como nunca verdadeiramente foi olhada. Quando a noite vem, silenciosa, ela ouve-o a respirar. (E
amo-me por te amar.)
Levanta-se, abre a janela e sente o frio
gelá-la e sabe-lhe bem (tão bem!). Ele acorda e olha-a com aqueles olhos feitos
de mundo. Ergue-se da cama e abraça-a pelas costas, todo o seu ser se arrepia, beija-lhe o pescoço e contemplam juntos o luar. Sopra-lhe para o pescoço e é como se toda ela cantasse.
(E tu fosses a obra perfeita de um arte diferente da vulgar, uma
arte superior,
a arte de fazer amor.)
MFG