Estou aqui sentada a pensar nos últimos dias. A pensar no quão exigente sou comigo mesma. Estudo, trabalho (aliás agora tenho dois trabalhos), tento ser prestável para com os outros e acabo por magoar os que mais amo. Eu, que nunca pensei ter uma única atitude de ciúmes, consegui ser o mais desprezível possível com o amor da minha vida. Como pude duvidar da sua moralidade? Dos seus valores? E do seu amor por mim? Que raio de pessoa sou eu se não acredito numa das pessoas mais importantes para mim? Numa das pessoas que tem estado comigo no bom e no mau, no certo e no incerto, na luz e na escuridão?
Estou exausta. Uma exaustão física. E psicológica. Não quero cair de novo no abismo, mas o corpo e a mente parecem querer. Era tão mais fácil cair... Perdi, quer dizer tenho vindo a perder uma amiga - seria amiga de verdade? - que considerava como irmã... Tenho questionado muito sobre o tipo de pessoa que ela é ... Será que é o que dizia ser? As atitudes têm, muitas vezes, mostrado o contrário... Apetece-me perdoá-la, mas como se ela não me pede desculpa por nada? A culpa é sempre minha... Pelo menos é o que ela diz... Quer fazer-me acreditar que sou má pessoa, será que a deixo? Será que deixo que me deite abaixo? E o resto? E o resto que sempre me deitou abaixo? Agarro-me a isso e afundo-me de novo nesta merda desta depressão? Que teima, como sempre, em vencer, em apoderar-se das minhas entranhas e tirar-me a fome, o sono, a vontade de viver, de existir, de ser, de querer, de lutar? Que é que eu faço?
Quem me dera que alguém pudesse decidir por mim e me dissesse que tudo irá correr bem... Quem me dera poder gritar e o mundo pudesse parar de girar e todos os bons seres me abraçassem e apertassem e me dissessem que eu não merecia, nem mereço sofrer. Quem me dera que a minha mãe nunca me tivesse rejeitado, batido, tratado mal, desprezado, olhado com ar de desprezo, chamado "sem-abrigo". Quem me dera que o meu irmão nunca me tivesse violado, molestado, espancado, tirado a auto-estima. Quem me dera que o meu ex-namorado nunca me tivesse tentado bater, que nunca tivesse posto em causa a veracidade do que lhe disse. Quem me dera que a amiga de que falo me entendesse, entendesse o que sofro dia após dia e que me desse o espaço de que necessito para finalmente sentir saudades dela, como dantes. Quem me dera que muitas coisas fossem mais simples. Quem me dera não ter de trabalhar num café, quem me dera fazer algo mais de acordo com as minhas capacidades intelectuais, algo que me estimulasse, algo que me motivasse. Quem me dera, depois de 15 anos a estudar, não ter de fazer outro curso enquanto trabalho. Quem me dera não conviver com pessoas falsas e hipócritas todos os dias. Quem me dera não ganhar 500 euros depois de tantos anos a estudar. Quem me dera ter tempo para conversar com o meu namorado como dantes, aquelas conversas filosóficas de que sinto tanta falta. Quem me dera ter mais tempo para conversar com a Cátia, com a Vera, com a Inês. Quem me dera que o João morasse mais perto para podermos ir a concertos revolucionários. Quem me dera que a Vilar voltasse para Lisboa. Quem me dera que a minha tia nunca tivesse partido. Quem me dera ainda poder ouvir a voz do Morais dizer "então e os gajos?". Quem me dera ser tão ingénua como dantes... Quem me dera voltar ao secundário, altura mais feliz da minha vida em termos de amizades, mas incluir nessa altura o meu Huguinho.
Tenho esperança, uma esperança idiota e absurda, de que tudo isto irá voltar. Pelo menos, o Morais volta sempre para mim, todos os dias está comigo. Tenho de me deixar a mim própria acreditar que as coisas vão tomar um rumo fantástico, e que eu própria vou ficar surpreendida com o quão fantástica a minha vida será a partir do momento em que ponha o pé fora desta casa, em que passe a partilhar o quarto com o meu amor e não com o meu irmão (?), em que possa estar com as minhas queridas e eternas amigas quando bem nos apetecer, em que possa pintar, voltar a escrever a sério, abrir o meu negócio e divertir-me, namorar, passear, ir ao cinema, ao teatro, cozinhar.
Tenho demasiadas saudades vossas. Vera, Cátia, Inês.
E tuas. Hugo.
E tuas. João.
E tuas. Vilar.
E tuas. Morais.