março 29, 2015

O ser humano

      Tinha mesmo de escrever. Era imperativo que o fizesse. As coisas mudaram. É também imperativo que mudem. Mas desta forma? De que outra forma seria, perguntas? Não sei, honestamente, não sei. Mas tudo me parece um bocado vago, disperso. Afinal quem és? Quem somos? Quem fomos? E seremos, sequer?
         A minha voz paterna sempre me alertou para o facto de que amigos chamamos, sem termos noção de quem realmente denominamos amigo. Que é isso de ser amigo, se por vezes nem nós somos amigos de nós próprios? Se nos intoxicamos de pensamentos deturpados e sujos? Bruscos e injustos? Há uns anos eu retorquiria, mas pai, estás a pensar mal, isso era na tua altura, agora tudo é diferente. Mas o velho sábio, que de velho só a idade tem, me avisaria com um sorriso límpido, Olha que não minha filha, Olha que não. Amigos contamo-los pelos dedos e sobram tantos dedos...
Não acreditava. Torcia o nariz e pensava que o meu velhinho teria perdido os seus amigos por falta de tentativas de manter o contacto, de se manter, no fundo, em contacto. Pensava, na minha arrogância juvenil que eu seria, de facto, diferente. Que eu era, em alguma coisa, diferente dele, do meu sábio pessoal. 
           Bem, acho que - com humildade, o digo - me enganei redondamente. Enganei-me de tal forma que me feri (continuarei a ferir?) tantas e tantas vezes. Se ainda sinto igual? Isso não. Também o meu velho me avisara, Com a idade tudo se passa de forma diferente dentro de nós, Só queremos sobreviver, ir vivendo, Passamos a dar menos importância a muita coisa, e tudo passa a ter um peso menor, Tudo pesa menos. Talvez menos a gordura, não pai? Ele ria-se. Menos isso, claro está.
          Tento continuamente fazer piadas disto, desta dor que  teima em me assolar. Mas há dias assim. Dias em que o passado se revela muito, demasiado presente. Dias em que olhamos para trás e o que vemos são impossibilidades no presente, coisas que jamais voltarão e que talvez nem fizesse sentido que voltassem. Mas atenção: eram coisas que pensávamos que nos definiam. Eu era os amigos que tinha, a vida que tinha, os hábitos que tinha, a ideologia que tinha. E quando tudo muda? Os amigos (?) revelam o pior de si, revelam que pelo vil metal passam a ser uns "bons profissionais", mesmo que isso implique uma indignificação total e brutal da sua (des)umanidade; a vida muda a cada instante e, por isso, os hábitos, as rotinas deixam de existir, tomando conta da nossa vida o aleatório, o inesperado, o inconstante; a ideologia lima-se, aperfeiçoa-se rumo à simplicidade da ideia do Humano, do Ético. Tudo muda. De facto, o mundo é mesmo feito de mudança. 
            Mas e nós, no meio de tudo isto?
       Diria meu pai, Filhota, já te disse que as pessoas têm três grandes defeitos: são egoístas, invejosas e ... Catano, não me lembro do outro, mas já to disse variadas vezes, Pois, pai, pois disseste, nem eu me lembro... Mas sei que concordo contigo, já o disse variadas vezes também, Mas tem de ser assim? O Ser Humano não pode ser melhor? Poder pode filhota... Mas será que algum dia vai ser?
       Não sei, penso cá para mim. Se calhar não quer e pronto. Se calhar estamos todos muito agarrados aos estereótipos: é de esquerda fuma, é de extrema-direita tem o cabelo rapado e é anti-aborto, é preto sabe dançar kizomba, é rico porque roubou, é pobre porque não quer trabalho, é sem-abrigo porque escolheu sê-lo! E é neste mundo estúpido, feito de pessoas estúpidas, cheias de teorias e vazias de acções que tentamos, da forma que conseguimos, ir vivendo. Que tentamos, da forma que conseguimos, ir sendo felizes. 
         Era imperativo escrever isto. Pelo menos, para soltar estes demónios que dentro de mim teimam em ficar de cada vez que a vida, tal qual uma árvore em dia ventoso, me bate violentamente sem eu estar à espera.

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