setembro 13, 2012

Os pobres


Os pobres são uma espécie à parte. Cheiram mal, usam roupas rotas e falam muito alto.
Os pobres digamos assim, não foram educados como os ricos – em colégios privados com direito a amas e sem mães que os amassem. Os pobres – ai, credo: grita a senhora chique que passa pela tasca, por engano – esses pobres são nojentos, dizem asneiras e fumam um cigarro após o outro no intervalo da cerveja que vão bebendo. O que ela não sabe – pobre senhora – é a razão pela qual o fazem – a pobreza. E não, não é a pobreza de espírito que assola a senhora tão bem vestida e bem cheirosa, tão bem comida e tão airosa. A pobreza. Pobreza de não ter comida para pôr na mesa – ou ainda, de não ter mesa onde pôr a comida que não se tem nem nunca se teve. Pobreza de ter sede – sede de vida, sede de mais do que subsistir nesta sociedade, diz ela – justa -, dizemos nós – de merda. Os pobres? Ó senhora! Os pobres são vocês. Sim, vocês – os ricos. Os que destroem os sonhos dos nossos filhos ainda antes deles terem sequer nascidos; Sim, vocês – os ricos. Os que nos devem seis meses de salário e ainda troçam de nós dizendo que nos pagam em certo dia e depois falham, mais uma vez, o pagamento. Sim, vocês – os ricos. Os que mandam no mundo e tornam esse mesmo mundo na desumanidade que vemos todos os dias. Sim, vocês – os ricos. Que passam férias no estrangeiro, que compram roupas caríssimas, enquanto nós não temos férias e andamos rotos – e andar roto já não é mau, porque podíamos simplesmente nada ter para vestir não fossem as organizações de acção social. Sim, vocês – os ricos. Que do alto do vosso pedestal pensam saber o que é a vida, as agruras da vida, as dificuldades da vida, enfim, a beleza da vida, desenganem-se. Vocês só são ricos, porque nós somos pobres.

MFG

agosto 23, 2012

?

Não sei se estou acordada ou se estou a sonhar. Existo. Sei que existo porque me sinto, porque me oiço - oiço tudo o que se passa aqui na minha mente, todas as palavras que escolho não pronunciar com a minha boca - , porque me cheiro, porque me vejo ao espelho, porque sinto os meus pés a tocarem o chão e as minhas mãos na chávena quente. Mas existirei sem ser fisicamente? A consciência de mim própria, da minha própria existência, assombra-me dia após dia. E se eu não existir metafisicamente? Se dentro de mim não houver nada de abstracto e tudo for tão concreto como a chuva a escorregar-me pela face abaixo - aquela chuva, aquela lágrima, aquele choro - ou como o sol que me queima o braço que encosto à janela do autocarro? E se estiver destinada ao questionamento eterno? E se vier a descobrir que, pensando ter existido, pensando ter criado uma história,um caminho, um trilho, um desenrolar de momentos, não tiver, afinal, criado absolutamente nada? E se tudo já estivesse destinado à partida e eu não passasse - como todos nós - de uma marioneta controlada por uma força superior a mim?
 
Talvez esteja a sonhar. Mas a sonhar acordada. De dia. Ou então de noite. Só sei que não estou aqui, eu nunca estou aqui. Quero sentir-me perdida para de novo me encontrar. Mas perdida como? Perdida do quê? Desprovida de quem? De que força? De que forças? Quero compreensão sem que eu própria me compreenda. Aquilo que me inquieta é tão grande, tão imenso, tão abrangente que quando dito, quando verbalizado, se torna uma gota, uma pequenina gota que, pouco a pouco, se vai evaporando. Fora de mim. Dentro de mim, há um oceano, o maior oceano de todos. Dentro de mim, existo eu. Só eu. Única e exclusivamente eu.
 
MFG

agosto 15, 2012

Cascata


Sento-me perto da cascata – uma cascata qualquer desde que seja bela, imponente e límpida – e cruzo as pernas. Aproximo a minha mão esquerda da mão direita e deixo-as cair no meu colo, posicionando-as de forma a que os dedos indicadores apontem para o meu umbigo – o centro energético do meu corpo, o que resta do cordão umbilical, o mais perto do que um dia fui. Endireito a coluna, semicerro os olhos e penso em tudo o que me aconteceu até aqui – como vim aqui parar? Quem sou eu? Quem fui? Como fui essa pessoa? Porque já não sou essa pessoa? -, penso especificamente no que me aconteceu hoje – Será que devia ter pedido desculpa e não pedi? Será que devia ter escolhido outra palavra? Será que a magoei? Poderia ter sido mais compreensiva com os outros ou mesmo comigo própria? -, penso no que poderei vir a ser – Será que vou atingir os meus objectivos? Será que vou ser sempre feliz? O que é ser feliz? Vou acabar como todos os outros: frios, insensíveis, mortos que se limitam a sobreviver? – e, por fim, recordo as palavras do meu instrutor, do meu amigo Salvador: «Ouve, querida, tens de relaxar. Como se não houvesse passado ou futuro, mas apenas presente. Contudo, mesmo o presente é um presente do qual te distancias – o que há de mal é só o que há de mal, nada mais. Faz o exercício da respiração como te ensinei: inspiras, expiras, inspiras, expiras.»

Estas palavras fazem sempre com que pense na quantidade de vezes que respiramos durante as 24 horas que compõem um dia e como não prestamos atenção nenhuma a isso. Como é que não nos sentamos, tentamos esquecer tudo à nossa volta e olhamos para dentro de nós próprios, tendo a perfeita noção do funcionamento dos nossos órgãos, da estrutura do nosso corpo, da profundidade da nossa alma, do nosso “Eu”? Como é possível que passemos a vida a correr – sem saber bem para onde – e não nos sentemos no banco do jardim a apreciar uma árvore, uma pedra, um cão, um pedaço de terra, o simples gesto bondoso de um velho que dá a mão ao seu neto? Que andamos a fazer aqui, afinal?

Oiço a água a correr na cascata. É como se me ouvisse a mim própria, os meus pensamentos correm uns atrás dos outros - «não chegues tarde», «deixa-me em paz», «já te disse que não vou voltar atrás», «não é aquilo que parece, a sério», «já te tinha avisado que não era assim que se fazia isso», «é impressionante o quão burra consegues ser» -, sem cessar, sem me dar tréguas. Quero que parem, quero que acabem, mas não - «Deixa os pensamentos passarem, com calma, lentamente, sem pressas. Lembra-te: o mais importante é que em ti tudo seja natural e nada seja imposto.», sussurra o Salvador aos meus ouvidos como se fosse um espírito, como se eu e ele comunicássemos por telepatia.

Volto a tentar. Sinto todo o meu corpo a adormecer, é como se fosse uma sensação de formigueiro em todo o meu corpo – sabem aquela sensação de quando são abraçados pela pessoa que amam? É isso que se sente um pouco antes de se atingir o nirvana -, deixo de ouvir o barulho límpido da água e só oiço o silêncio, o som mais puro, mais belo de todo o Universo: o som da Mãe, a Terra-Mãe que nos pariu, o som do Pai, o som do Pai que amou a Mãe, o som do Amor, o som da Paz. Sinto a minha respiração, sinto-a em todo o meu corpo, não quero sair daqui, quero estar aqui, ficar aqui, não quero abrir mais os olhos. Quero cegar. Ficar cega aqui – com o som silencioso da água, respirando com a consciência plena de que o faço, sem medo do futuro, sem o peso do passado ou a ânsia do presente -, ficar cega aqui e abraçar todo o Universo de uma só vez. Estar aqui – comigo -, estar aqui – contigo -, estar aqui – convosco -, cega, surda, muda. Sem sentidos, mas com todos eles tão apurados que, finalmente, sei o que é a felicidade. Pura.

MFG

agosto 10, 2012

cão ladra

O cão ladra. Eu sorrio. Nunca percebi porquê, mas de facto o ladrar dos cães faz-me sorrir. Acho-os semi-deuses, se é que isso existe. Ou mesmo deuses, caso existam semi-deuses. Parecem-me puros, inocentes, ingénuos. Anjos sem forma humana, sem qualquer forma humana. E a maneira como abanam a cauda quando estão contentes? Podemos saber que estão contentes. No caso do ser humano, um sorriso pode ser falso, uma gargalhada irónica, mas o abanar da cauda de um cão? Sempre verdadeiro. E aquele brilho no olhar que parece ter sido polido só para nós, só para ser olhado? Os olhos são o espelho da alma, mas só nos cães. Os seres humanos estão munidos da arte de enganar. Da capacidade de falsificar emoções. Vejam lá que até conseguem fingir que estão a chorar? Basta fixar um ponto e lá caem lágrimas como se de tristeza ou angústia se tratasse. Os cães? Os cães não. Quando os ouves ganir, é porque estão a sofrer. Eles não sabem fingir. Como o saberiam? São animais de instintos, mas instintos naturais. E, como tudo o que é natural, é verdadeiro, os cães são sempre aquilo que são. Lambem-nos as pernas se nos amam. Mordem-nos os braços se tentamos fazer mal a quem eles amam. E as pessoas? Amam, sequer? Fingem que amam? Sabem o que é amar? E quando parecem gostar de nós, gostam? Ou só estão a fazer parte de uma peça de teatro? Quando perde o dono, o cão pode morrer de saudades. Aliás, morre muitas vezes de saudades. Ouve-se o som angustiante do seu choro, um choro tão sentido que aperta o peito. Deixa de abanar a cauda. Deixa de comer. Deixa de saltar e brincar com a bola preta e branca. Deixa de ter os olhos brilhantes e "pedir" comida encostando a cabeça nos nossos joelhos. Um cão morre quando o dono morre, quando alguém que ama morre. E uma pessoa? Não. É por isto tudo que sempre que o cão ladra, eu sorrio.

MFG

agosto 09, 2012

Que é que isso tem?

«Esta dor é tão profunda. É uma dor que me acompanha há uma década. É a dor da perda da inocência ou então da chapada nessa mesma inocência. É como se a minha infância tivesse morrido. Como se a minha pré-adolescência tivesse sido adiada. É verdade que podia ter-me queixado, podia ter contado, podia ter gritado, mas não. Preferi calar esta dor por variados motivos: em primeiro lugar, não queria magoar ninguém, achava que podia sair magoada sozinha, não importava; em segundo lugar, não queria aumentar a guerra que sabia que iria começar futuramente; em terceiro lugar, acreditava que era culpa minha, que era normal, que eu merecia aquilo. Foi por isso que, a certa altura, achava que tinha conversas telepáticas com o meu tio. Não tinha, mas precisava tanto que alguém me ouvisse, que alguém soubesse ler o meu silêncio, os meus olhares de medo, os meus olhares de terror. Ninguém conseguiu fazê-lo. Acho que nunca ninguém me compreendeu realmente. Totalmente. Isso torna esta dor ainda mais profunda. Cada vez mais profunda, apesar de já ter passado tanto tempo. Considero-me hipócrita, falsa. Afinal vivo aqui. Estou aqui. Preocupo-me. Tento ajudar-te. Mesmo depois de me teres tirado a inocência. E de o teres feito sem problemas, sem remorsos. «Mas somos irmãos.» , dizia eu. «Que é que isso tem?» - gritavas. Mas tem, tem muita coisa. Tem que fizeste de mim o que sou hoje. Tem que sofro todos os dias com isto. Tem que sempre que olho nos teus olhos, sinto medo. Como sinto medo quando gritas ou me agarras no braço de forma violenta. Quando me bates ou quando tentas impor-me o teu pensamento. Eu sofro todos os dias. Sofro por ter sofrido. Sofro por não ter tido ninguém comigo. Sofro porque tu mataste a minha infância. Sim, aquela infância que podia ter sido cor-de-rosa, com borboletas e nuvens feitas de algodão. Sim, aquela infância que podia ter sido jogos, brincadeiras, corridas, quedas e joelhos doridos. A minha infância foi uma infância de gritos, ameaças, sussurros. Foi uma infância de dor, dor tão profunda que não conseguia explicar a ninguém por que razão me sentia daquela forma. Eu achava que era assim com toda a gente, com todos os irmãos. Eu achava que era normal, tu dizias que era, que não tinha mal. Mas eu sentia nojo. E dor. E apetecia-me vomitar, morrer, sair, fugir.
Apesar de tudo, sobrevivi. Mas não esqueço, nunca esqueci. Nunca hei-de esquecer. Sinto que quanto mais tempo passa, maior é esta dor que me dilareça o peito. Como é possível ainda te desejar tão bem? E querer que sejas feliz? Depois de todo o mal que me fizeste, depois de toda a dor, depois de todos os gritos, depois de tudo isso, como é possível querer-te bem?»

- Como se sentiu ao escrever esta carta, Tânia? - questiona Ana, a psicóloga, enquanto lhe devolve a folha de papel.
- Senti-me ... senti-me como se não merecesse ser amada. Senti-me como se cada vez fosse mais complicado entender-me e essencialmente sentir que mereço o amor de quem quer que seja.
- Mas você já entendeu que nada disto é culpa sua, certo? - Ana estende a mão à espera da mão de Tânia que nunca chega. Tânia baixa a cabeça e fita o chão branco.
- Eu sei que não é. Mas, por vezes, sinto-me tão triste que me pergunto se, afinal de contas, não serei má pessoa. É que eu desejo bem a alguém que só me deu coisas más. Isso faz sequer sentido?
- Querida, oiça. Nem tudo na vida tem necessariamente de fazer sentido. Você tem um coração muito grande, de ouro diria a sabedoria popular. Você não consegue cultivar o ódio dentro de si porque só tem amor para dar. De certa forma tem pena dele, eu sei. Sente até compaixão, pois acha que ele nunca vai conhecer a verdadeira felicidade, certo? Nunca será verdadeiramente feliz.
- Acho que é isso, sim. Não sinto ódio por ele, é verdade. Aliás não sinto isso por ninguém. Acho que odiar só nos faz mal. E eu tento, todos os dias, sentir-me melhor comigo própria. Mas e à noite, como faço? Sempre que deito a cabeça na almofada, sinto uma dor imensa, um arrepio, um medo que me corta, que me despedaça. Sempre que oiço o ressonar dele, fico aflita. E quando entro no quarto e o apanho em cenas que não desejo, sinto-me doente, apetece-me vomitar e morrer ali mesmo. Só me apetece ... sei lá ... só me apetece... - Tânia não aguentava tanto choro contido e acabou por, apesar de não querer, se agarrar à psicóloga que lhe cobrava imenso dinheiro à hora, a chorar. A soluçar.
- Só lhe apetece ser feliz, eu sei. - Ana retribuiu o abraço e deixou que Tânia chorasse até se cansar. Depois falariam dos problemas existenciais que assolavam a jovem mulher.

MFG

julho 28, 2012

Um novo lar


Nasce um novo dia. Lá fora chove, mas aqui dentro reina o clima quente da ausência do coração. Ou, pelo menos, da ligação dos corações. Sente-se um vazio. Uma solidão imensa. Falta lar dentro do lar. Dentro deste lar. Sobram lágrimas, lágrimas já tão secas de sentido e de sentimento. Falta pureza por aqui. O passado não permite que se continue a caminhar levemente, que se continue a acreditar na verdade. O passado matou este lar. Matou os corações. Um por um, devagar, devagarinho.

Os dias nascem, mas é como se não nascessem de facto. Falta a felicidade, a alegria, o diálogo, os sussurros, as gargalhadas. Falta o abraço sincero e o beijo desmedido. Falta a independência e a vontade de união. Sem isso não há lar. Isto é só uma casa. No sentido material da palavra. A metafísica desapareceu ao longo dos anos tal como desapareceu a vontade, o amor, a sinceridade, a preocupação, a independência, o objectivo. Desapareceu o que de mais bonito há nas relações humanas e ficou isto: o vazio, as paredes caiadas de branco-sujo, os quadros velhos sem memórias, a infância perdida, a falsa adolescência feliz, os cigarros que sujaram os meus pulmões, a dor que corroeu o meu peito. Mesmo isso desapareceu. Agora só existe vazio. Um eterno e longo vazio. Um inexplicável vazio.

Estar aqui é estar aí contigo sem poder tocar-te. É pensar que consegui, apesar de tudo, amar e ser amada por vários corações. É saber que vários corações me abraçam com amor. Isso consola-me, isso deixa-me feliz. É isso que me ajuda verdadeiramente a ser feliz. São esses momentos de paz, de alegria, de loucura ou mesmo de calma que fazem a minha vida valer a pena. O meu lar é fora daqui. O meu lar é com vocês: com o vosso amor, com o vosso sorriso, com as vossas palavras, com os vossos risos, com as vossas lágrimas, com a vossa sinceridade, com a vossa maneira de ser e de estar no mundo. O meu lar é onde me sinto bem, onde me sinto amada, onde sou tratada como importante. O meu lar já morreu. Ardeu. Desapareceu.

O meu lar é com vocês. Bem longe daqui. Bem longe deste lugar. O meu lar é com a vossa vida. Com o vosso ser. O meu lar é também contigo, agora. Contigo nesse universo paralelo que me alheia deste mundo. Deste mundo de aparências, falso, asqueroso. O meu mundo é com vocês. E contigo. O meu lar, o meu verdadeiro lar, é ao pé de vocês, é ao pé de ti.

MFG

julho 25, 2012

isolamento existencial (a dois)

Já há luz lá fora. Uma luz ténue, suave e uma leve brisa. Levanto-me da cama, espreguiço-me e olho para ti, olho para ti e vejo-te realmente. Sei que és aquilo que me mostras, sei o teu mistério todo porque o teu mistério é o meu mistério. Passo a minha mão pelo teu braço, sinto um arrepio no coração e saio do quarto. Sinto uma felicidade pacificada. Uma paz feliz. Sinto-me como se todo o mundo fosse bom. Sinto-me com forças para lutar caso não seja assim tão bom. Sinto-me extraordinariamente calma. Sinto-me segura. Esta segurança que nunca tive.
Saio de casa e vou dar uma voltinha por ali. Não há ninguém, não há pessoas, carros ou cães. Oiço, ao longe, o sino da igreja. Mesmo esse som se torna incómodo tal é o silêncio. Tal é a paz. Vou caminhando sem saber muito bem para onde me levará esse caminho, mas não estou preocupada com isso. Sei que a minha paz está aqui. Ou ali deitada no quarto. Porque a minha paz se confunde contigo. 

E agora pergunto: como vivi até aqui sem ti? Sem a tua (c)alma? Sem o teu olhar? Sem o teu cheiro? Sem o teu beijo? Sem o teu carinho?

E enfim, percebo. Percebo que é como dizes, tudo o que se faz por bem é realmente uma obra de arte, que tudo isto estava destinado, que é como se isto já tivesse acontecido há tanto tempo, mas só aconteceu agora apenas fisicamente. E isolámo-nos do mundo. Criámos o nosso próprio mundo. O nosso ser. A nossa metafísica. O nosso cantinho. Mas sempre a dois. A verdade é que seria indiferente se estivessemos sozinhos, porque a verdade é que somos tão semelhantes, tão parecidos, tão genuínos que eu sou tu e tu és eu. E onde ficou este isolamento existencial a dois? Ficou lá nas ruas e vielas silenciosas? Nas pessoas que não passaram por nós? Nos cães que não nos ladraram? No vento ausente nos dias quentes? Ou no calor que era substituído pela leve brisa ao fim da tarde? Nos nossos abraços ternos e calorosos? Nos nossos beijos que arrepiam?

Esse isolamento ficou lá e veio connosco nesta vontade intensa de nos isolarmos do mundo para conseguir compreendê-lo, para conseguir finalmente amá-lo. Entendê-lo. Abraçá-lo. É só estando fora da sociedade que podemos compreendê-la. E é so estando fora de ti que te posso entender. Sempre.

MFG

junho 22, 2012

um olhar

Como se lê um olhar? Eu sei ler um livro, porque fui preparada para isso. Porque sei descodificar os sinais que nele se transmitem. Sei apreender a forma como se transmitem. Agora um olhar... Não sei o que significa esse olhar ou esses olhares, esse jeito de olhar, ou essa ausência de olhar... Será que significa sequer alguma coisa? Ou será que significa tudo?
Agora imaginemos: leio as palavras erradas no teu olhar. Que faço? E se as que pensava erradas, estão afinal certas? Se não me estou a enganar, afinal?
E se hoje fosse realmente o «primeiro dia» do resto da minha vida? Se fosse beber do tal copo sem fundo? E se ficasse alcoolizada com esse copo sem fundo? E se me apaixonasse por esse olhar que não sei o que significa? E se fosse possível que nascesse algo certo do errado? E se fosse plausível que, sem nunca ter sido ensinada, soubesse ler bem um olhar, o olhar, o teu olhar?

Já não sei se vale a pena deambular por estas ruas... voar neste céu ... aterrar nesta praia... valerá a pena? Será possível que, no fim de tudo, isto valha a pena? Será que se tornará real? Ou não passará de mais uma ilusão? De mais um caminho sem fim?

MFG

junho 12, 2012

não é possível

Como é possível amar alguém sem conhecer essa pessoa? Eu bem sei que nunca conhecemos ninguém, nem sequer a nós próprios. Mas amar? Estar apaixonado? Sem convivência? Sem palavras? Sem defeitos? Sem virtudes? Como é possível o amor, que será à partida um sentimento calmo, um sentimento ténue, começar de um momento para o outro? Acham que acredito nisso? Não acredito . O amor é uma construção, o amor é um caminho e esse caminho só se faz caminhando. Não é forçando o caminho.
Paciência. Hábito. Gosto. Amor.
Se construirmos o que quer que seja numa base instável, será que vai realmente correr bem? Será que é gostar quando gostamos porque o outro também gosta de nós? Será que há realmente pureza nas relações amorosas actuais? Gosta-se realmente? Ou simplesmente sente-se atração física?
Não entendo. Mas fundamentalmente o que não entendo é como é possível não percebermos que assim o que iremos gostar será a idealização da pessoa e não a pessoa em si. Será que o amor tem mesmo de ser uma falsidade? Uma mentira? Uma farsa? Eu espero que não. Eu ainda acredito que é possível amar alguém de uma forma verdadeira, pura e calma.
Gostar. Gostar é uma palavra tão banalizada. Dita vezes demais. Dita vezes demais sem sentimento.
Nem quero falar na palavra amar ... amor ... amo-te ...
Como é possível até nisso esta sociedade se mostrar consumista? É tudo demasiado imediato, não há calma, não há paciência, não há pureza ...

MFG

junho 10, 2012

serei eu o mendigo?


Eu vejo a fome sem sair de casa

Porque eu não tenho casa

A minha casa é o mundo

Que fez com que eu não tivesse casa

Para ver a fome na esquina mais próxima

 E não na minha própria esquina

Que é a rua ali em baixo

Porque eu vivo na rua



Eu vejo a corrupção

E não tenho televisão

Eu vejo-a nos teus olhos

Nos teus gestos, na tua apatia

Na tua indiferença quando eu peço

Uma esmola, um carinho, um olhar

Um abraço, meu irmão



Eu vejo o teu esgotamento

Todos os dias, eu vejo-te a correr

A correr sem saber bem para onde

Corres para apanhar os transportes,

Corres para o emprego,

Corres para casa,

Afinal, corres para quê?



Que pensas atingir depois de tudo isto?

Porque não aproveitas

O que é simples?

Porque não te rebolas na Terra?

Porque não dás um mergulho no Mar?

Porque não te deitas debaixo de uma árvore?



Eu vejo a bondade e não preciso

De falar contigo

Eu olho-te

Estás sentado todo o dia naquele banco

Lês, calmamente, um livro

Danças ao som do vento

Sorris pela simples existência

Que é poderes sorrir

E eu sei que és feliz assim.



A minha casa é o mundo

Que fez com que eu não tivesse casa

Para ver a fome na esquina mais próxima

 E não na minha própria esquina

Que é a rua ali em baixo

Porque eu vivo na rua

E para ver a simplicidade de se viver simples,

Simplesmente, sem complexidade.

Eu vejo-te: tu és feliz. Eu vejo-te: eu sou feliz.

E tu? Quando vais parar de correr?

MFG

maio 20, 2012

utopia

Esta utopia que me deslegitima, esta utopia que me ridiculariza, esta utopia que me diferencia não parece suficiente para viver. Quero viver de outra forma, já não sei ser assim. Creio veementemente na possibilidade de ser verdadeiramente feliz e de os outros o serem também. Creio na possibilidade de a humanidade melhorar, creio na impossibilidade de atingir a perfeição. Mas isto já não parece fazer sentido nenhum. Terá feito nalgum momento? Hoje pergunto-me por que razão não aproveitei melhor os momentos de criança, aquela inocência que perdi, que já não sei onde está, aquela coisa que era sorrir sem me preocupar que sorria, que era amar sem me preocupar quem amava, sem saber o que era amar.

MFG

maio 14, 2012

Não sei o que escrever. E é por não sabê-lo que escrevo. Se o soubesse, di-lo-ia.
Queria mostrar aos outros o que sinto em mim, esta paz de espírito que me atormenta todos os dias, este cansaço que com alegria faço desaparecer, esta mágoa que não tenho das coisas da vida, esta desconfiança que quer fugir e que estou a deixar viajar pelo vento. Queria tanto que me vissem como sou na realidade, que esta realidade que é ser-me em mim própria fosse realmente o que passo para os outros. Queria que os vossos olhos cinzentos se tornassem brancos. Brancos de todas as cores. Brancos como a neve. Brancos como a pureza de ser impura sem maldade. Queria que viessem comigo para casa e entendessem o que é viver como vivo, o que é pensar como eu penso, queria que me moldassem com as vossas mãos para eu deformar a forma que me querem impor. Eu queria tanto que me mudassem. Que mudassem para eu mudar a seguir. Para eu alterar o que vocês achavam ter tornado distinto. Queria que me tornassem o Sol para eu, revolucionária, fazer de mim Lua. Que me tornassem Praia para eu me tornar naquele sítio à beira-mar sem mar que é o Alentejo. Queria tanto que me falassem ao ouvido sobre as coisas que eu ainda não sei, queria tanto que deixassem de me gritar aos ouvidos como se eu não soubesse nada. Queria que percebessem a minha infância e compreendessem a minha adolescência. Que parassem de questionar a minha dor, a minha alegria, a minha mágoa, a minha felicidade. Queria que viessem ver os animais a sofrer e que deixassem de ver animais a sofrer. Ou, pelo menos, que fizessem alguma coisa para que os animais deixassem de sofrer. Queria também que olhassem um sem-abrigo nos olhos e que descobrissem se há diferença entre os seus olhos e os vossos, entre as suas mãos e as vossas, entre o seu choro e o vosso. Que olhassem uma flor e percebessem como é tão bom sermos simples. Simples, o mais simples possível.
Não sabia o que escrever e foi apenas por não sabê-lo que o escrevi. Quero que, caso haja alguma mensagem neste emaranhado de palavras sem nexo, que a deitem fora e construam a vossa. Porque esta é a minha.


MFG

abril 19, 2012

contra qualquer crueldade feita aos animais!



Qual é a diferença entre o teu cão de estimação de que tanto gostas e um porco ou uma vaquinha? Não têm todos sentimentos? Não têm todos sistema nervoso central?

abril 15, 2012

desabafos

Eu sou aquilo que eu quiser. Mas tenho de agir em consonância com o que quero ser. Se quero ser prostituta, tenho de vender o meu corpo a troco de dinheiro ou outros bens materiais. Se quero ser activista, tenho de lutar pelos meus direitos sempre que possa. Se quero ser cantora, convém que tenha formação musical ou se não, que tenha o dom de cantar. Mas não posso querer ser prostituta se não tenho a capacidade de vender o meu corpo a troco de bens materiais. Nem posso querer ser activista se o único sítio onde luto pelos meus direitos é dentro da minha cabeça. Percebamos todos, de uma vez por todas, que não podemos querer ser cantores se a nossa voz não é límpida, nem clara nem agradável. Percebamos que não podemos querer ser algo para o qual não temos capacidades. Percebamos que se há algo que amamos profundamente, pode até suceder que não tenhamos qualquer jeito para isso. Ou pode suceder o oposto.Eu sou aquilo que me faço ser. Como posso querer que me entendam se me calo quando o Outro me questiona? Se sinto piedade de mim própria? Que raio de Ser Humano com o minímo de auto-estima pode sentir pena de si próprio? E que mensagem quer esse Ser Humano passar aos outros quando se auto-flagela seja em actos, seja em palavras, seja em expressões? As pessoas têm o valor que exteriorizam. As pessoas recebem dos outros, exactamente aquilo que dão. Nem mais, nem menos. Se as pessoas não entendem isso, o problema é delas, não é meu.

abril 08, 2012

a sociedade em que vivemos

Gosto de pessoas simples. Acessíveis. De riso fácil. De conversa fluída. Que não julguem os outros pela aparência. Que não se achem superiores aos outros, seja por que razão for. No fundo, pessoas humanas. Gosto de pessoas profundas. Com pensamentos profundos. O que não significa que não goste da chamada "conversa fiada", a conversa sobre tudo e nada, que vai sempre convergir no mesmo ponto. As pessoas simples e profundas interessam-me particularmente já que acrescentam humanidade à minha humanidade, sabedoria à minha sabedoria, ideias às minhas convicções. As pessoas acessíveis são puras. São fáceis no sentido social, no sentido de criação de laços relacionais. São engraçadas com o seu humor peculiar. São verdadeiras com a sua frontalidade. São atenciosas com o seu ar amoroso. Pensam nos outros como pensam em si próprias: como seres dotados de sentimentos e, por isso, de emoções. Daí que, não obstante a frontalidade, tenham de ter algum cuidado com a forma como dizem as coisas. Aquelas pessoas com quem conseguimos conversar, seja sobre o assunto mais erudito seja sobre o mais simplório e básico, e que sentimos serem amistosas, agradáveis, simpáticas, simples. São essas as minhas pessoas: o meu tipo, o meu género de pessoas. De seres humanos. E era assim que deveria ser a humanidade.
Não gosto de pessoas arrogantes. Pessoas que se acham superiores e que não têm renitência em mostrá-lo aos outros. Pessoas que vivem das aparências, pessoas que dão mais valor a uma peça de roupa do que a um amigo. Pessoas que valorizam os outros pelo que vestem e não pelo que são. Pessoas que não sabem o que é a metafísica. Que desconhecem Kant. Que ignoram política. Que preferem conversar sobre as compras que fizeram ontem com o dinheiro dos "papás". Que acreditam que todos têm dinheiro para ir de Erasmus (e quem não vai, é porque não quer, dizem...). Que olham os outros de cima a baixo. Que abominam comunistas, anarquistas, hippies, socialistas. Que nem sabem o que é ser comunista, anarquista, hippie ou socialista. Que não sabem o que é o amor, porque valorizam primeiro o que veêm, sempre primeiro o que veêm e, talvez, com algum tempo, valorizem o que as pessoas são na realidade. Que, no fundo, são infelizes, porque procuram a perfeição exterior. Querem ocultar o facto de não serem boas pessoas, de não saberem sentir amor pelos outros, de não se saberem pôr no lugar dos outros, de não perceberem que nem todos são dessa forma. Este tipo de pessoas são, para mim, o reflexo da sociedade capitalista. Não são capazes de olhar o Outro com compaixão, com amor, com amizade, com a noção imensa de solidariedade pelo Outro. Olham-no com desprezo, de soslaio, demonstrando asco através das expressões faciais. Nem o seu sorriso é verdadeiro ainda que seja bonito. E se não é verdadeiro, como pode ser bonito? Este tipo de pessoas não são seres humanos. São seres não-humanos. Não me consigo convencer de que é possível um ser humano julgar os outros pela aparência e achar-se superior, vá-se lá saber porquê.
Que me importa que sejas linda? Que sejas lindo? A beleza é, para mim, consequência do carácter. A beleza é relativa, o carácter não.

MFG 

abril 06, 2012

Deus

Só quero deitar-me na cama e dormir. Dormir para esquecer esta vida que vai passando enquanto estou acordada. Para perder de vista esta dor que de mim se apoderou. Havia tanto tempo que não me sentia assim: perdida, vazia, só, profundamente só. Que raio de Deus és tu, afinal? Omnisciente e  omnipotente que nada mudas, nada fazes, nada dizes? Como é que posso acreditar que existes se nunca te vi nem em actos, nem em palavras, nem em sonhos? Só posso dizer que existes, porque te vejo nas omissões, vejo-te naquilo que tu não fazes, naquilo que tu não mudas, naquilo que tu não entendes.
É por isso que só me quero deitar na cama e dormir. Dormir para ver se te encontro, para ver se me dás algum sinal, se mudas algumas destas coisas que me impedem de ser feliz. Não me venhas dizer que eu é que tenho de mudar as coisas! Que mais tenho feito eu do que isso mesmo? Que mais tenho eu tentado fazer do que mudar tudo isto? Tu não existes, não me venhas dizer que és omnipotente, pois se és detentor de toda a potencialidade para mudar as coisas, por que razão elas continuam iguais? Tu não existes, porque se existisses tudo o que era mau iria parar a todos os que são maus e não o oposto. Tu não podes existir, porque se existisses eu não estaria a escrever isto, eu não precisaria de dissertar sobre a tua existência. Se, ao menos, me desses um sinal, qualquer coisa, uma luz, a luz, a escuridão, a mudança, a diferença, a felicidade, a infelicidade, qualquer coisa, a coisa mais simples, a coisa mais complexa. Mas não. Não sinto nada que venha de ti, não recebi nada teu, não percebo por que razão inventaram que existias: seria só para causar inquietação? Seria só para causar frustração quando percebessemos que eras a maior mentira de todos os tempos?
Tu não existes e, por isso, estou a falar para o vazio. Para o nada. Tu és o nada. Tu não és nada. Tu não existes, porque se existisses ... isto não estaria assim.

«Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.» José Saramago.

Mariana Guerreiro

abril 04, 2012

Prisão

Que terás pensado quando estiveste preso? Pensavas que a culpa era tua? Ou pensavas que valia a pena lutar contra o regime? Que, um dia, tudo iria mudar? Será que a dor foi muita quando te arrancaram as unhas a sangue frio? Será que, em algum momento questionaste o teu próprio ser? A tua vontade? A tua ideia?
E eu que estou presa dentro das estruturas que eu própria construi, o que posso pensar, afinal?Que a culpa é minha?Que mais valia arrancarem-me as unhas a sangue frio do que passar todo o dia comigo própria? Que tudo isto é muito complicado, que é tão complicado que eu não sei bem o que dizer, o que fazer, como o fazer? Que o melhor seria não pensar, seria tomar ácidos, fumar aquelas coisas ilegais e deixar-me ir por este mundo afora sem pensar demasiado, sem pensar em rigorosamente nada? Que, no fundo, tenho medo de mim própria e não dos outros? Que seria tão bom ser como outra, mas também ela é assim? Também ela tem medo, muito medo, medo demais, tanto medo ...
Se ao menos as grades fossem exteriores a mim, eu poderia andar dentro da cela, meditar dentro da cela, ter espaço para pensar, para decidir, para fazer, para imaginar que fazia algo, mas e quando as grades estão dentro de nós? O que é que eu faço se estou presa dentro de mim? E se fui condenada a prisão perpétua? Sem visitas, sem poder receber prendas? Sem poder sentir o amor, a amizade, a alegria, a felicidade? Diz-me lá, o que é que eu faço? Mato a parte de mim que está presa ou espero pacientemente que alguém me venha libertar?

março 18, 2012

mana =(

Diz-me o que se passa, irmã.
Usa as palavras que souberes,
Não te cales perante mim.
Diz-me que fui má, feia, bruxa
Mas diz-me qualquer coisa,
Que sintas,
Que queiras,
Que vejas ...

Não me afastes de ti, por favor ...
Não desapareças do meu coração ...
Não me tires do teu coração ...

Diz-me o que se passa, minha irmã! Meu amor! Minha linda! Minha amiga!
O que tens? Por que razão não verbalizas essa dor?
Eu queria dizer-te, mas não posso...
Não quero que fiques triste ...
Não mereces isso!Só mereces felicidade ... Desculpa...

Eu amo-te minha irmã ... Meu amor ... Minha linda ... Minha amiga... Desculpa se a culpa não é minha ...

MFG

a morte

«Já nem no espelho me reconheço. Nem pior nem melhor nem igual. Diferente. Diferente do que queria, diferente do que fui. Diferente do que idealizei. Até que gosto do que criei. Do que acabei por fazer de mim própria. Uns dias mais, outros dias menos. Mas gosto de saber que me entendem. Que, na generalidade, gostam do que sou. Que a minha vida parece estabilizada. Que, de todas as coisas que não entendo, a única que não consigo esquecer é a morte. É a veracidade da morte, a existência da morte. A inevitabilidade da morte. O meu pensamento odeia inevitabilidades. E se acho que nada é inevitável, acha o pensamento errado na morte ... A morte existe! E existe tão claramente que acontece todos os dias! Tal como a vida ... Mas a vida irá originar morte, e a morte não origina vida ... A morte só origina mais morte.. Se morre alguém de quem gostas, morre certamente uma parte de ti ... E vais vivendo com partes mortas ... A sociedade quer negar esta realidade, quer falar sobre isto... O que há para falar sobre isto?! Nada! Rigorosamente nada! A morte é a realidade mais real! É a inevitabilidade... É inevitável que vás morrer ... Mas porquê? Eu amo-te ... por que razão vais morrer? Que merda de vida é esta que implica amar para depois morrer contigo?
Quem me dera que alguém conseguisse explicar-me que merda é esta!!! Que vida de merda! Que merda de vida! Para quê tantos risos se o futuro são as lágrimas? Para quê tanta ligação e intimidade se o fim último disto tudo é o vazio, o preto, a dor, o luto? Andamos a enganar-nos uns aos outros .. Todos os dias, a morte parece tão longe ... E tão perto ... E vivemos como se nunca fôssemos morrer ... E eis que de repente te dizem: Fulano morreu! E de novo, vem a morte relembrar-te desta merda de vida! E da inevitabilidade da merda da morte! Resumindo, andamos todos a viver desta ou daquela forma, fazendo isto ou aquilo, actuando conforme dita a rotina, o quotidiano, para quê? Para que é que estudamos, sabemos, falamos, sorrimos, corremos, andamos, fazemos, amamos, beijamos, abraçamos? Para depois deixar de ter o teu abraço?O teu cheiro?O teu amor?A tua voz?
Que merda de vida é esta que está toda virada do avesso? Se vamos morrer para que raio nascemos, sofremos, sorrimos, perdemos, achamos, ouvimos, lemos, amamos? Para morrer? Para cairmos no vazio, no escuro, no nada, no niilismo?
Merda dez vezes para isto tudo!! Vamos atirar-nos de um penhasco e sentir o vento a cortar-nos a respiração! Para morrermos de uma vez! Para vivermos eternamente ... »

MFG

março 08, 2012

....

Sinto-me a caminhar, mas não sei para onde. Sinto-me a vencer, mas não sei como. Sinto-me a amar, mas não sei porquê. Sinto-me e não sei o que sinto.

janeiro 31, 2012

o que eu sinto

É difícil expressar o que sinto. Não sei se é o barulho do vento a bater nos ramos das árvores que me comove, não sei se é o silêncio a que me obrigo que me deixa neste estado, não sei se me estou a tornar, de novo, no que já fui: o eterno e simples silêncio. Ao longo de muito tempo, pensava ter atingido o equilíbrio, pensava ter atingido alguma felicidade, mas começo a questionar tudo isso. Sei que dizes compreender-me, entender-me, mas não sentes o que eu sinto. Não sentes como eu sinto. Não sentes isto, não sentes o espelho a consumir-te, não sentes que o que te deveria confortar, te está a matar. Chamem-me o que quiserem. Maluca, doida, parva, egoísta, mal agradecida. Deêm-me conselhos que nem vocês próprios seguem. Digam-me o que fazer. Afinal, não é sempre assim?
Eu não sei explicar de outra forma, nem sei falar sobre isto. Sempre achei que verbalizar as coisas as torna reais. E eu tenho tanto medo que isto se torne real, que acabo por negá-lo, ainda que não pense em nada para além disto. É como se vivesse de uma obsessão transparente, algo que não existe, que talvez nunca vá existir. [Sim, eu dou-me valor! Sim, eu gosto de mim!] Mas gostava que o que mostro fosse mais o que sinto. Que o que vai dentro de mim passasse para ti: que tu visses o que eu sinto.
Nunca percebeste por que razão não o consigo fazer? Nunca olhaste verdadeiramente para dentro de mim e percebeste o que me faz estagnar tantas e tantas vezes? Não sei se vou ser feliz. E há tantas coisas que eu não posso fazer para mudar isso. E mesmo que possa, será que vou ser? Terei força para agarrar no Sol sem me queimar? Terei força para voar sem temer a queda que dali advirá?
Tenho muitas perguntas e nunca encontro respostas. E não há ninguém com quem possa falar sobre isto senão contigo. Sempre receptivo a ouvir-me. A permitir que escreva em ti. Não é que não haja pessoas que eu ame, não é que não confie nelas, mas se elas soubessem o que de mais negro há em mim, talvez deixassem de me amar. Talvez, no fundo, o amor resida no mais profundo desconhecimento do Outro. Ou talvez apenas seja eu que não sei amar...

MFG
31-01-2012

janeiro 23, 2012

cobardia

Pensar em ti é pensar em todos
Vós
Nos vossos olhares e beijos
No vosso cheiro, nas vossas mãos
No vosso carinho, nos vossos gestos
Na vossa magia

Pensar em mim é pensar no que
Fui
Convosco, com tudo o que souberam fazer
E ainda mais, com tudo o que não fizeram

...Eu já não sei amar...

Pensar em amar é pensar em
Nós
No que conquistámos juntos
Nas batalhas travadas e na luta que nunca
Acabou
Nos beijos de amor que demos
Na certeza desse amor
Na honra desses gestos, desse toque
Na saudade desse abraço
Na paz dessa voz

Pensar em tudo isto
É recear ainda mais o futuro
É recear ainda mais o sorriso que teima em não chegar
É recear a dor de uma ferida em cima de outra
É temer, antes de mais, o brilho nos meus olhos
E os teus olhos baços, vazios
É temer o fim antes do começo
É temer que, depois de ti, não haja depois de ti
É recear que não existas em mais ninguém
E se tudo não passar de um jogo?
E se, como diziámos, o passado for demasiado negro?

Não quero viver aprisionada só porque
é correcto, é bonito, é certo, é interessante
Só quero mudar se não tiver de mudar
Se o que sou for o que serei
Se for diferente, respeitador e amigo
Se for para doer ainda mais, dispenso.

Afinal, a emancipação metafísica
Significa que preciso de mim e nada mais
Para ser feliz.
Se querem substituir-me, sufocar-me, preencher-me, vou bater com a porta.
Só fico, se me quiserem completar.
Sim, vocês...
Sim, tu ....

MFG
22-01-12

Felicidade

Começo a aperceber-me de que muitas das coisas que jurei nunca fazer, já as fiz e que muitos dos pensamentos que prometi nunca ter, não saem da minha cabeça.
Afinal, que há de diferente entre mim e os Outros? O que me separa do meu par? O que me diferencia do meu amigo?
Às tantas, talvez sejamos realmente todos iguais (no sentido espiritual e no sentido "real") no sentido em que nada nos distingue, exceptuando o aspecto físico (irrelevante já que me estou a referir a um plano espiritual). Dizem que no limite, todos queremos ser felizes e até posso concordar. Acho apenas importante diferenciar dois tipos de felicidade: felicidade individual e felicidade colectiva. A primeira depende muito da segunda (exceptuando as pessoas "naturalmente" más - será que as há realmente?) assim como a segunda depende muito da primeira uma vez que um conjunto de indivíduos felizes originam uma comunidade feliz.
Acho contudo que apenas a forma de atingir a felicidade é um factor distintivo dos seres humanos - será? Será que existe sequer uma forma, uma maneira de atingir a felicidade?Ou existirão várias? E alguma delas apresenta resultados?
Não sei. E é basicamente isso que descubro todos os dias: que não sei. Não sei se há uma forma de encontrar a felicidade, a qual relaciono em grande parte com a paz interior, ou se existem várias. Ou se não existe nenhuma. Ou se nem sequer existe felicidade, mas apenas laivos momentâneos de felicidade.
Concluo, de forma nada inovadora ou irreverente, reiterando que nada sei, que quanto mais penso mais dúvidas tenho e que este género de monólogos que travo comigo própria, apenas me tranquilizam na medida em que são libertados, na medida em que me despeço deles (sem deles me despedir) e procuro encontrar, assim, a minha felicidade. Mesmo não sabendo o que é, se existe, como achá-la e seduzi-la, eu acredito. E é isto que faz de mim uma pessoa feliz.

MFG
22-01-12

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