«Dá-me um abraço e diz que me entendes. Não quero que digas que me amas, pois isso é efémero. Diz-me que me compreendes, que entendes a minha dor. Eu consigo ver nos teus olhos se entendes. Consigo perceber pelos teus gestos se me percebes. Se captaste a dor que há em mim.»
«Não me dês presentes, eu não os quero. Não me mintas, eu sinto asco pela mentira. Diz-me a verdade. Diz-me o que realmente pensas. Diz-me se me queres aqui. Por que razão me mentiste sempre? Eu sou tua filha. E tu nunca me amaste! Não dizem que o amor de mãe é verdadeiro? Onde está o teu, mãe?»
«Desculpa. A culpa é minha, mãe. O erro fui eu. Eu sou um erro. Um risco. Uma linha demasiado grande. O fim de um trajecto. Eu fui feita sem ser feita. Eu não devia estar aqui. Eu - admito - sou um erro.»
«Vivo com esta dor, com esta mágoa e carrego-a todos os dias. Cada dia a dor me verga mais. Há dias em que tu me vês erguida, mas minh'alma está debruçada como um vime de tristeza. Há dias em que, por detrás da minha aparência feliz e sadia, está a minha mágoa e a minha dor. »
«Por muitos anos que passem, mãe, eu nunca vou esquecer. Nunca vou esquecer que não me quiseste ter. Que não sou o que querias. Que querias o oposto do que sou. Que nunca me aceitaste assim. E que, por mais que eu me esforce por te agradar, nunca é suficiente. Mas que mal fiz eu?»
«A vida ir-se-á encarregar de me explicar isto. De me explicar por que tenho de sofrer assim. Por que razão os outros podem abraçar-te e eu não. A vida vai dizer-me, eu sei que sim. E é só por isto que nunca saberei o que é viver límpida, clara, sem mágoa, sem dor, sem guerra. Porque a pessoa que mais me devia amar, é a pessoa que menos ama.»
«Desculpa. Se é que a culpa de ter vindo ao mundo, é minha.»