dezembro 30, 2011

eterna mágoa

«Dá-me um abraço e diz que me entendes. Não quero que digas que me amas, pois isso é efémero. Diz-me que me compreendes, que entendes a minha dor. Eu consigo ver nos teus olhos se entendes. Consigo perceber pelos teus gestos se me percebes. Se captaste a dor que há em mim.»

«Não me dês presentes, eu não os quero. Não me mintas, eu sinto asco pela mentira. Diz-me a verdade. Diz-me o que realmente pensas. Diz-me se me queres aqui. Por que razão me mentiste sempre? Eu sou tua filha. E tu nunca me amaste!  Não dizem que o amor de mãe é verdadeiro? Onde está o teu, mãe?»

«Desculpa. A culpa é minha, mãe. O erro fui eu. Eu sou um erro. Um risco. Uma linha demasiado grande. O fim de um trajecto. Eu fui feita sem ser feita. Eu não devia estar aqui. Eu - admito - sou um erro.»

«Vivo com esta dor, com esta mágoa e carrego-a todos os dias. Cada dia a dor me verga mais. Há dias em que tu me vês erguida, mas minh'alma está debruçada como um vime de tristeza. Há dias em que, por detrás da minha aparência feliz e sadia, está a minha mágoa e a minha dor. »

«Por muitos anos que passem, mãe, eu nunca vou esquecer. Nunca vou esquecer que não me quiseste ter. Que não sou o que querias. Que querias o oposto do que sou. Que nunca me aceitaste assim. E que, por mais que eu me esforce por te agradar, nunca é suficiente. Mas que mal fiz eu?»

«A vida ir-se-á encarregar de me explicar isto. De me explicar por que tenho de sofrer assim. Por que razão os outros podem abraçar-te e eu não. A vida vai dizer-me, eu sei que sim. E é só por isto que nunca saberei o que é viver límpida, clara, sem mágoa, sem dor, sem guerra. Porque a pessoa que mais me devia amar, é a pessoa que menos ama.»

«Desculpa. Se é que a culpa de ter vindo ao mundo, é minha.»

vazio

Sinto-me vazia. Não é vazia no sentido de não amar e ser amada. Não é vazia no sentido de ser infeliz. Não é vazia no sentido de não ter objectivos e sonhos. É vazia no sentido de desorientada. No sentido de não saber se é este o caminho, se é assim que devo fazer ou, se no fim de contas, nada disto vale a pena. É uma sensação de vazio que me preenche desde que acordo até que me deito. Planeio o meu dia, mas ainda ele não vai a meio, e já desisti de metade dos sonhos. Já desfiz metade dos planos.
Há quanto tempo não consigo fazer aquilo que realmente quero... E será que quero aquilo que realmente quero? Ou será que quero o que penso querer?
Sinto-me iludida. Não iludida no sentido das coisas correrem mal. Não iludida como sinónimo de desilusão. Iludida porque vivi muito tempo de ilusões. E agora essas mesmas ilusões parecem querer transformar-me e, eu não as deixo. Sinto que sofro de excesso de sonhos. Sinto que sofro de excesso de sentimentos. Sentir é o meu maior tormento. Sinto muito. Sinto sempre. Sinto demais. Sinto pelo que nem meu é. Sinto pelo que nunca será meu.
Será que é deste mal que irei perecer? Eu só queria ver as flores, cheirá-las, olhar o Sol... E só queria que isso fizesse todo o sentido... Que isso fosse o meu mundo e que isso dependesse de mim, do meu amor, da minha dor, da minha felicidade, da minha mágoa...
Sinto-me assim. Desta forma. Desta maneira. Não sei ser de outra maneira. Não sei não sentir e, por vezes, nem sentir sei. Quero tudo de uma vez e, por isso, perco tudo sem sequer o possuir. É assim. Sinto-me assim. Hoje, sinto-me assim. E não sei o que é isto.

MFG

dezembro 20, 2011

A morte

Acho que não compreendo a morte, porque ela é antinatural.

Parece que estou a dizer um contrasenso, mas como posso imaginar que estou aqui hoje e sei-o perfeitamente e amanhã já não?
Não acredito em Deus, nem em nenhuma entidade superior e, no fim de contas, é por isso que me é ainda mais difícil entender a morte. Se eu te amo, como posso aceitar que, por uma qualquer fatalidade, tu desapareças? ...Como posso aceitar nunca mais sentir o teu abraço? Acho que é daqui que vem a minha ânsia em viver (que, por vezes, tanto mal me faz) tudo hoje e agora... Não quero que vás, não quero que vás antes de mim, mas também não quero ir porque não te quero fazer sofrer. E, apesar do livre-arbítrio, é aqui neste campo que ninguém pode escolher. Só posso escolher como vivo e viver.

Colonização

É difícil, como dizia Saramago, «explicarmos porque pensamos desta forma e não de outra qualquer». Acrescentaria que isto acontece porque a nossa receptividade ao outro é, em muitos casos, mínima. Queremos, como dizia também Saramago, «colonizar o outro, impondo-lhe a nossa opinião». Não estamos ainda preparados para ouvir o Outro, respeitá-lo e tentar compreendê-lo. Julgamos cada passo dado pelo Outro, cada sílaba que sai da sua boca sem questionar os nossos próprios actos. Não existe nenhum Ser Humano sem contradições internas - somos duais por natureza. O que faz com que evoluamos é a vontade de minar essas contradições, de neutralizá-las, de clarificá-las. Só assim conseguiremos o "Homem Novo", aquele acerca do qual tantos escreveram, aquele acerca do qual tantos teorizaram, mas que penso (com algum pessimismo) nunca irá existir. Pelo menos, não enquanto não se abolir do pensamento Humano a perfeição, a ideia de que o Outro nunca é límpido e claro como Eu, a ideia de que o Outro é apenas mais um, a ideia de que o Outro é o outro e Eu sou Eu. Enquanto o Homem não perceber que somos todos iguais, continuarão as guerras, o imperialismo, o colonialismo - de todas as formas: reais e psicológicas.

Colonizar não é só invadir um outro país e determinar que me pertence. Colonizar é, por meio da violência, persuadir o Outro a pensar o que eu penso e a viver como eu vivo. Colonizar é, por meio dos olhares de soslaio, demonstrar desprezo pelo que eu visto ou pelo meu estilo. Colonizar é, ao ouvir o que penso e sinto, gritar comigo violentamente até que me cale. Colonizar é, no fim de contas, todas as acções que tenham em vista a subjugação do Outro, inferiorizando-o até que ele próprio se convença de que não só é inferior, como merece ser tratado como tal. [Será exagero meu ou conhecemos todos muitas pessoas que foram colonizadas?]

Acho que até hoje nunca existiu democracia.

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