março 18, 2012

a morte

«Já nem no espelho me reconheço. Nem pior nem melhor nem igual. Diferente. Diferente do que queria, diferente do que fui. Diferente do que idealizei. Até que gosto do que criei. Do que acabei por fazer de mim própria. Uns dias mais, outros dias menos. Mas gosto de saber que me entendem. Que, na generalidade, gostam do que sou. Que a minha vida parece estabilizada. Que, de todas as coisas que não entendo, a única que não consigo esquecer é a morte. É a veracidade da morte, a existência da morte. A inevitabilidade da morte. O meu pensamento odeia inevitabilidades. E se acho que nada é inevitável, acha o pensamento errado na morte ... A morte existe! E existe tão claramente que acontece todos os dias! Tal como a vida ... Mas a vida irá originar morte, e a morte não origina vida ... A morte só origina mais morte.. Se morre alguém de quem gostas, morre certamente uma parte de ti ... E vais vivendo com partes mortas ... A sociedade quer negar esta realidade, quer falar sobre isto... O que há para falar sobre isto?! Nada! Rigorosamente nada! A morte é a realidade mais real! É a inevitabilidade... É inevitável que vás morrer ... Mas porquê? Eu amo-te ... por que razão vais morrer? Que merda de vida é esta que implica amar para depois morrer contigo?
Quem me dera que alguém conseguisse explicar-me que merda é esta!!! Que vida de merda! Que merda de vida! Para quê tantos risos se o futuro são as lágrimas? Para quê tanta ligação e intimidade se o fim último disto tudo é o vazio, o preto, a dor, o luto? Andamos a enganar-nos uns aos outros .. Todos os dias, a morte parece tão longe ... E tão perto ... E vivemos como se nunca fôssemos morrer ... E eis que de repente te dizem: Fulano morreu! E de novo, vem a morte relembrar-te desta merda de vida! E da inevitabilidade da merda da morte! Resumindo, andamos todos a viver desta ou daquela forma, fazendo isto ou aquilo, actuando conforme dita a rotina, o quotidiano, para quê? Para que é que estudamos, sabemos, falamos, sorrimos, corremos, andamos, fazemos, amamos, beijamos, abraçamos? Para depois deixar de ter o teu abraço?O teu cheiro?O teu amor?A tua voz?
Que merda de vida é esta que está toda virada do avesso? Se vamos morrer para que raio nascemos, sofremos, sorrimos, perdemos, achamos, ouvimos, lemos, amamos? Para morrer? Para cairmos no vazio, no escuro, no nada, no niilismo?
Merda dez vezes para isto tudo!! Vamos atirar-nos de um penhasco e sentir o vento a cortar-nos a respiração! Para morrermos de uma vez! Para vivermos eternamente ... »

MFG

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