Já há luz lá fora. Uma luz ténue, suave e uma leve brisa. Levanto-me da cama, espreguiço-me e olho para ti, olho para ti e vejo-te realmente. Sei que és aquilo que me mostras, sei o teu mistério todo porque o teu mistério é o meu mistério. Passo a minha mão pelo teu braço, sinto um arrepio no coração e saio do quarto. Sinto uma felicidade pacificada. Uma paz feliz. Sinto-me como se todo o mundo fosse bom. Sinto-me com forças para lutar caso não seja assim tão bom. Sinto-me extraordinariamente calma. Sinto-me segura. Esta segurança que nunca tive.
Saio de casa e vou dar uma voltinha por ali. Não há ninguém, não há pessoas, carros ou cães. Oiço, ao longe, o sino da igreja. Mesmo esse som se torna incómodo tal é o silêncio. Tal é a paz. Vou caminhando sem saber muito bem para onde me levará esse caminho, mas não estou preocupada com isso. Sei que a minha paz está aqui. Ou ali deitada no quarto. Porque a minha paz se confunde contigo.
E agora pergunto: como vivi até aqui sem ti? Sem a tua (c)alma? Sem o teu olhar? Sem o teu cheiro? Sem o teu beijo? Sem o teu carinho?
E enfim, percebo. Percebo que é como dizes, tudo o que se faz por bem é realmente uma obra de arte, que tudo isto estava destinado, que é como se isto já tivesse acontecido há tanto tempo, mas só aconteceu agora apenas fisicamente. E isolámo-nos do mundo. Criámos o nosso próprio mundo. O nosso ser. A nossa metafísica. O nosso cantinho. Mas sempre a dois. A verdade é que seria indiferente se estivessemos sozinhos, porque a verdade é que somos tão semelhantes, tão parecidos, tão genuínos que eu sou tu e tu és eu. E onde ficou este isolamento existencial a dois? Ficou lá nas ruas e vielas silenciosas? Nas pessoas que não passaram por nós? Nos cães que não nos ladraram? No vento ausente nos dias quentes? Ou no calor que era substituído pela leve brisa ao fim da tarde? Nos nossos abraços ternos e calorosos? Nos nossos beijos que arrepiam?
Esse isolamento ficou lá e veio connosco nesta vontade intensa de nos isolarmos do mundo para conseguir compreendê-lo, para conseguir finalmente amá-lo. Entendê-lo. Abraçá-lo. É só estando fora da sociedade que podemos compreendê-la. E é so estando fora de ti que te posso entender. Sempre.
MFG
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