Odeio-te. Sei que é uma palavra muito forte, mas a verdade é
que te odeio. Enojas-me. Sempre que me cumprimentas, o meu estômago revolta-se,
o meu coração bate mais rápido como que preparando-se para a fuga. Odeio-te. Odeio-te porque mesmo sentindo isto que sinto me preocupo contigo. Odeio-te porque quanto mais me afasto da altura em que me tiraste a infância, mais me sinto nela. Não é que me lembre dos pormenores todos - os especialistas dizem até que é normal -, mas lembro-me do que sinto. O que sinto é semelhante a um abismo. É como se a minha alma estivesse no cimo de uma montanha e ao invés de aproveitar a paisagem, apenas quisesse atirar-se sem pensar duas vezes. É como se a minha mente estivesse a banhar-se num rio belíssimo de água límpida e ao invés de mergulhar nele tivesse apenas vontade de se afogar. É como se o meu coração, que bate compassadamente ao som do amor, se tivesse tornado num simples papel amarfanhado que colocamos no caixote do lixo ao pé dos iogurtes já bebidos e da carne putrefacta.
Odeio-te. Odeio-te porque de facto não te odeio. Não sou capaz disso. Mas posso dizer-te - não te dizendo, porque nunca to direi (não o mereces) - que és tu o responsável pela minha arritmia; és tu o responsável pelas minhas oscilações de peso; és tu o responsável pela minha dificuldade em relacionar-me comigo mesma; és tu o responsável pela minha baixa auto-estima de há uns anos; és tu o responsável pela pessoa de merda que eu poderia ter sido. E eu sou a responsável pela boa pessoa que de facto sou!
Gosto de mim....
Gosto de mim....
... E tenho de dizê-lo todos os dias ao espelho... E a culpa é tua...
Eu tenho de viver sempre com as memórias, com o vazio, com este abismo existencial, com esta crua realidade. Mas tu? Tu, mesmo sendo um verdadeiro psicopata, terás que conviver para toda a eternidade com aquilo que fizeste. Porque tu sabes, mesmo que não queiras admitir, que mataste parte do que eu poderia ter sido, mas tu... Tu não poderias ter morto nada em ti, porque tu não vales nada...
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