junho 26, 2010

Um esquilo

Sem mais delongas, o silêncio. O imperturbável silêncio. O eterno silêncio. Ela estava novamente sozinha. Mas sentia-se acompanhada pelo chilrear dos passáros e pelo embater das folhas da oliveira umas nas outras. À sua volta, a vida continuava a passar. Passava sem tomar conta da sua dor, da sua mágoa que a levava a querer incorporar em si a tranquilidade de tudo o que é irracional. De tudo o que é natureza na mais pura ascensão da palavra.
Ouviu um barulho vindo de cima de uma árvore. Virou-se para tentar perceber do que se tratava. Entretanto, o horizonte parecia ter-se colorido como uma tela, como que por magia. Afinal o barulho não era nada de perigoso nem nada que atentasse contra a sua liberdade: era o som de um esquilo. Um lindo esquilo. Um simples esquilo. Um irracional esquilo.
E, durante largos minutos, deitou-se, tendo sempre o horizonte em linha de conta, fechou os olhos e desejou ser aquele esquilo por apenas uns intermináveis segundos. Ela sabia que só o ser humano se desilude, porque também é só o ser humano que tem a faculdade de se iludir. E era tão mais fácil se pudesse ser a oliveira, ou uma folha da oliveira, ou uma célula da folha da oliveira, ou um pequeno corpúsculo da célula da folha da oliveira. Tudo, excepto si própria. Excepto a racionalidade que encerrava em si um silêncio interminável. Que, infelizmente, nada parecia perturbar.

Palavras de nada valem se não se fazem acompanhar de actos. No entanto, os actos valem tudo sem palavras, sem construções falseadas que soam bem ao ouvido mas são hipocrisia para o coração.
MFG

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