novembro 21, 2011

A moça (Parte I)

Apaguei o cigarro e deixei que o fumo abandonasse os meus pulmões, expirando profundamente. Olhei de novo para o céu à espera de alguma resposta às minhas milhentas questões. Não encontrei. Decidi então pedir outro bagaço ao empregado e pus-me a observar as pessoas que passavam por ali. Algumas com um ar triste, outras com um ar mais feliz. Umas iam acompanhadas e a falar de qualquer coisa que não cheguei a perceber, outras iam sozinhas inertes nos seus pensamentos ou com os auscultadores nos ouvidos e a cantarolar pela rua fora. Reparei numa rapariga, talvez com os seus 14 anos, loira, de tez branca e cabisbaixa. Quis convidá-la para se sentar comigo, mas não tive coragem. Por um lado, a moça poderia achar que tinha segundas ou, mesmo, terceiras intenções e, por outro, pelas vestes que trazia calculo que vivesse na rua. Viver na rua? Deveríamos chamar a isto viver? Ou sobreviver? Ou quase-morrer? Bebi o bagaço de um só trago e levantei-me, indo ao seu encontro. Não olhou directamente para mim, pois não olhava em frente, fitava apenas o chão sujo e asqueroso, não pela passagem dela e de outros como ela, mas pela passagem dos de colarinho-branco - esses que a sociedade nunca rejeita. Tentei abordá-la com palavras suaves e sonantes, mas concluí que não devo tê-lo feito bem, já que mal proferi as primeiras palavras, ela desatou a fugir, embatendo até contra algumas pessoas que vociferaram todo o tipo de insultos. Desisti. Voltei a sentar-me na mesa do café, tirei outro cigarro e acendi-o com o meu isqueiro preferido - o que comprei na Jamaica há uns meses - e pedi outro bagaço. Depois de o beber de um só trago, achei que era melhor ir dar uma volta pela cidade e tentei esvaziar a minha mente de todos os pensamentos. Todavia, não conseguia deixar de pensar na rapariga. Por que razão teria ela fugido? E mais do que isso, por que razão "viveria" ela na rua?
Como não encontrava respostas para as minhas questões, sentei-me num banco do jardim e tirei a erva, que tinha comprado na Baixa, do meu bolso esquerdo. Fumei. Para tentar esquecer, para não me lembrar de nada.

MFG 

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