novembro 22, 2011

Conversas aleatórias

"O relógio não pára de trabalhar. As horas passam, os minutos passam, os segundos passam. Os dias passam. As pessoas saem de casa para o emprego e vêm do emprego para casa. Saem cedíssimo e chegam tardíssimo. Tratam dos filhos - as que os podem ter ou, simplesmente, os tiveram -, limpam a casa, tentam distrair-se com o que dá na televisão ou com uma rede social. Vão dormir, mas como sofrem de insónias, veêm-se obrigadas a tomar uns comprimidos para o conseguir fazer. Se, de noite os filhos choram, levantam-se tal e qual um exército caso o general os chame a meio da noite, e resolvem o assunto - qualquer que ele seja. Os que não conseguem ter filhos, vão a consultas para tentar atingir esse sonho. No entanto, a vida será exactamente igual. A certo ponto os filhos começam a ir para a escola. Uns adaptam-se mais facilmente, outros com maiores dificuldades. Na adolescência, tudo pode acontecer ( ou então, não acontece nada, o que continua a ser mau). E quando se tornam adultos, tornam-se independentes e seguirão o mesmo ciclo que os pais."

"O relógio não pára de trabalhar. Os anos sucedem-se. Mas ninguém pára para pensar o que andamos aqui todos a fazer. Por que razão aqui estamos. Por que razão fazemos o que fazemos e da forma que o fazemos. Será que foi sempre assim? Será que tem de ser assim? Será que é isto a vida?
O Homem de hoje tem tudo. E não tem nada. A evolução tecnológica é de salientar, mas a evolução metafísica é lamentável. As pessoas fazem o que fazem. Mas não sabem porque o fazem. Não questionam por que o fazem. E mais do que isso, é perigoso se alguém lhes disser isto. Serão chamados de extremistas, esquerdistas, revolucionários e outras coisas ainda piores."

"E o relógio continua a andar. No meu tempo de juventude, depois do 25 de Abril, era honroso estar na escola. Estudar era algo que era considerado importante. Lembro-me que ninguém acreditava ( no tempo do fascismo) que fosse possível que eu, um simples operário, algum dia estudasse. E tirava boas notas, ai se tirava. Os professores costumavam dizer que daria um bom escritor. Penso que era só para me dar auto-estima e afagar o ego. Ainda hoje, apesar dos 490€ que ganho como auxiliar numa escola, sou autodidacta: leio muito e vejo pouquíssima televisão. O meu professor de português ensinou-me a sentir o cheiro do papel e a formular as minhas próprias opiniões sem me deixar influenciar pelos meios de comunicação social. Sempre fiz isso. E é por isso que acho que se, no tempo do fascismo vivíamos numa ditadura, hoje vivemos numa democracia. Contraditório? Ou, pelo menos, estavam à espera de mais qualquer coisa de todo este discurso? Explicarei melhor: no tempo do Estado Novo não se podia falar em ditadura, mas o que vivíamos era uma ditadura. Hoje, podemos falar de ditadura, não podemos? E de que nos vale? Vivemos sim, deixem-me reformular, uma ditadura democrática. Agora estão com dúvidas, não é? Como é que é ditatorial e democrático ao mesmo tempo? É simples. Se um dos objectivos da democracia é a liberdade, ou melhor, as várias liberdades e a consequência das mesmas, se é a aproximação das classes sociais, então como vivemos em democracia?
Eu, que apenas sou um "contínuo", eu que fui operário, reafirmo aqui, a democracia vivi-a eu nos dois anos a seguir ao 25 de Abril, quando havia esperança, alegria e respeito. Hoje? Existe democracia: nas estatísticas, na soberania perdida e nos políticos corruptos."

"Quando falo com um marxista, fico imediatamente enojado. Como é possível alguém acreditar na luta de classes? O povo é sereno, não é? Os mercados são muito importantes e os bancos são o fundamento da minha sociedade capitalista. Não podemos fazer nada que os irrite. Não é por isto que não queremos o bem das pessoas. Que raio de ideia! É como digo, os marxistas, esses que acham que o mundo está dividido em dois lados - o deles e o nosso - são pessoas néscias e, mais do que isso, mentirosas. Querem dizer-nos que é possível a igualdade de classes? Tretas, balelas. As classes têm de existir: tem de existir o rico e o pobre. E o pobre tem de se submeter ao rico. Vê-se mesmo que os marxistas não conhecem a teoria do Darwin: teoria da evolução, hein?
O 25 de Abril não fez sentido nenhum, já que nem sequer foi feito pelo que eles chamam - o povo - mas sim pelos militares do MFA. Para não dizer que se estamos como estamos hoje, deve-se em parte ao fim das colónias. Mas, afinal, qual é o problema do colonialismo? Não temos culpa que os pretos não saibam o que é a democracia. Só fomos ensiná-los. E o problema desses marxistas com a NATO? Se fomos para a Líbia é porque esses povos inferiores não sabem o que é a democracia.
O marxismo é asqueroso. O marxismo é anti-natural. "

"Sim. Dei na escola o marxismo. Sim, também sei o que é o comunismo. E o fascismo. E o nazismo. E essas coisas todas. Se me lembro? Claro que não. Isso é só para fazer o teste e, depois, esqueçe-se tudo. Se ainda me perguntassem nomes de jogos de vídeos ou algo que se tivesse passado na "Casa dos Segredos". Agora política? Sociologia? Nem sei o que é isso. Mas passei sempre com 15 a história."

"Adoro livros. Se pudesse passar a vida a ler, era o que faria, certamente. Tipos de livros? Acho que todo o tipo, exceptuando romances ao estilo americano (casam, divorciam-se, têm filhos, etc...). Desde ciência até filosofia e história, passando pela sociologia. Tudo me agrada. Gosto de pensar. Gosto mesmo muito de pensar. Se isso me servirá para alguma coisa? Mais que não seja, anexa conhecimento ao meu conhecimento e faz com que saiba cada vez mais. Se me dá emprego? Poderia, mas para isso teríamos de viver numa meritocracia e não é bem nisso que vivemos, vivemos mais na "onda da corrupção". Os partidos do arco da governação, servindo-se das empresas privadas, da corrupção, do cacique, da manipulação dos media vão conseguindo ganhar as eleições. Se acredito na política? Sim, apenas duvido dos políticos que têm tido cargos executivos em Portugal desde o 25 de Abril. Tirando um ou outro dos governos provisórios ( como por exemplo, o Vasco Gonçalves). Não faço ideia o que vai acontecer em Portugal a seguir, mas não adivinho nada de bom. Porquê? Porque as pessoas não entendem quem fala a verdade, a verdade é algo que se tornou tão irrelevante que as pessoas não a querem, não a procuram, não a abraçam. E quem fala a verdade é, sempre, infelizmente, prejudicado."


MFG

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