Os pobres são uma espécie à parte. Cheiram mal,
usam roupas rotas e falam muito alto.
Os pobres digamos assim, não foram educados como os
ricos – em colégios privados com direito a amas e sem mães que os amassem. Os
pobres – ai, credo: grita a senhora chique que passa pela tasca, por engano –
esses pobres são nojentos, dizem asneiras e fumam um cigarro após o outro no
intervalo da cerveja que vão bebendo. O que ela não sabe – pobre senhora – é a
razão pela qual o fazem – a pobreza. E não, não é a pobreza de espírito que
assola a senhora tão bem vestida e bem cheirosa, tão bem comida e tão airosa. A
pobreza. Pobreza de não ter comida para pôr na mesa – ou ainda, de não ter mesa
onde pôr a comida que não se tem nem nunca se teve. Pobreza de ter sede – sede de
vida, sede de mais do que subsistir nesta sociedade, diz ela – justa -, dizemos
nós – de merda. Os pobres? Ó senhora! Os pobres são vocês. Sim, vocês – os ricos.
Os que destroem os sonhos dos nossos filhos ainda antes deles terem sequer
nascidos; Sim, vocês – os ricos. Os que nos devem seis meses de salário e ainda
troçam de nós dizendo que nos pagam em certo dia e depois falham, mais uma vez,
o pagamento. Sim, vocês – os ricos. Os que mandam no mundo e tornam esse mesmo
mundo na desumanidade que vemos todos os dias. Sim, vocês – os ricos. Que
passam férias no estrangeiro, que compram roupas caríssimas, enquanto nós não
temos férias e andamos rotos – e andar roto já não é mau, porque podíamos
simplesmente nada ter para vestir não fossem as organizações de acção social.
Sim, vocês – os ricos. Que do alto do vosso pedestal pensam saber o que é a
vida, as agruras da vida, as dificuldades da vida, enfim, a beleza da vida,
desenganem-se. Vocês só são ricos, porque nós somos pobres.
MFG
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