fevereiro 14, 2010

A casa

Os dias passam aqui. Aqui dentro de mim. As horas são pedaços cortados de ti. Aqui dentro de mim. As noites vêm. Aqui dentro de ti. Os segundos são infímas partes do que foi. Aqui dentro de nós.
Caiu mais uma folha da árvore que nos guiou. Da que jurou manter-se sempre de pé de fronte à casa que construímos. Como uma simpática guia turística para o nosso cantinho, para o nosso pequeno espaço. Atenciosa e disposta a receber qualquer pessoa, provida de qualquer tempo para viver, com diferentes razões para ter vindo. Caiu outra folha da árvore que sempre nos guiou. E acho que ouvi o som de uma guitarra. Lá bem ao longe. Uma balada. Um som suave, mas simples acessório desta dor que se alastrou. Porque é que caiu outra folha? Por detrás dela vejo o valor que têm as memórias. É isso que fica do que fomos. E também do que seremos. Apesar de cairem folhas na realidade nua e crua que nos enclausurou, eu vejo a árvore que via, aquela que estava de fronte à casa que construímos, num ribombear de dias que se colavam à maravilha da solidão acompanhada, à faceta extraordinária escondida em cada par de olhos apaixonados. É isso que vejo na árvore donde caiem as folhas, as folhas discretas que nos foram momentos, que nos fizeram existir. Caiu mais uma. E agora a árvore está nua e vazia. Como eu. Como tu. Mas não como nós, não como a casa que construímos de fronte da árvore.
E o som da guitarra, ao de longe, tocou infinitas notas, infímas partes de mim. Discretas partes da vida que me assolou, que eu não pude escolher, mas que aceitei. E apareceu uma sombra. Talvez a sombra da próxima árvore, da próxima memória, da próxima que eu irei ser. Para a qual estou preparada. Para a qual toda e qualquer vida me preparou, aceitou e quis. Conseguindo atingir hoje até que ponto já nenhum de nós sabe a idade. A idade. O tempo. E a memória. Só a memória prevalece.

MFG  

Sem comentários:

Enviar um comentário

Seguidores