Caiu mais uma folha da árvore que nos guiou. Da que jurou manter-se sempre de pé de fronte à casa que construímos. Como uma simpática guia turística para o nosso cantinho, para o nosso pequeno espaço. Atenciosa e disposta a receber qualquer pessoa, provida de qualquer tempo para viver, com diferentes razões para ter vindo. Caiu outra folha da árvore que sempre nos guiou. E acho que ouvi o som de uma guitarra. Lá bem ao longe. Uma balada. Um som suave, mas simples acessório desta dor que se alastrou. Porque é que caiu outra folha? Por detrás dela vejo o valor que têm as memórias. É isso que fica do que fomos. E também do que seremos. Apesar de cairem folhas na realidade nua e crua que nos enclausurou, eu vejo a árvore que via, aquela que estava de fronte à casa que construímos, num ribombear de dias que se colavam à maravilha da solidão acompanhada, à faceta extraordinária escondida em cada par de olhos apaixonados. É isso que vejo na árvore donde caiem as folhas, as folhas discretas que nos foram momentos, que nos fizeram existir. Caiu mais uma. E agora a árvore está nua e vazia. Como eu. Como tu. Mas não como nós, não como a casa que construímos de fronte da árvore.
E o som da guitarra, ao de longe, tocou infinitas notas, infímas partes de mim. Discretas partes da vida que me assolou, que eu não pude escolher, mas que aceitei. E apareceu uma sombra. Talvez a sombra da próxima árvore, da próxima memória, da próxima que eu irei ser. Para a qual estou preparada. Para a qual toda e qualquer vida me preparou, aceitou e quis. Conseguindo atingir hoje até que ponto já nenhum de nós sabe a idade. A idade. O tempo. E a memória. Só a memória prevalece.
MFG
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