junho 23, 2010

o amor

O amor é um total fingimento. Parte de um fingimento. Dura porque é, na verdade, um grande e exasperante fingimento. Eleva-se como verdade pura e eterna quando é um mero fingimento e também dotado de tal efemeridade que quando não se sofre por ausência, sofre-se por presença. Não me incomoda assumir que
sofro metodicamente por saber que o sofrimento é ambíguo e, por isso, cheio de contradições. Não acredito na paixão, não. Assumo peremptoriamente que não acredito na paixão. Não acredito porque me soa a piano com voz de guitarra ou a melodia combinada com o ribombear dos tambores díspares da emoção e da razão. É-me impossível crer na paixão se a sei finita. Como me é impossível crer no amor porque só conheço um tipo de amor-real: o amor que não prende, o amor que aceita a diferença, o amor que recebe e dá sabendo bem por que razão o faz. Não acredito no amor, no outro-amor-cujo-nome-prefiro-não-pronunciar, no outro amor que se apodera da outra pessoa, no outro amor que resvala perante nós sem se deter perante tamanha inocência. É imprudente afastar-me desta (ir)realidade pois nela me encontro, pois sou igual ao comum dos mortais. Mas o meu desejo é oposto a isto. O meu desejo é nunca mais me apaixonar por ninguém, mas saber dentro de mim que amo aquele Ser, não pelo seu aspecto físico, não pelo que ele/ela me lembra, não pelas palavras lindas que me diz, mas pelo que é. Não pela representação que tenho dele/dela , mas pelo quanto ele/ela acrescenta aos meus defeitos.

MFG

1 comentário:

Seguidores