Quanto mais se adia falar do que nos consome por dentro, maior parece essa dor. Isso passa-se porque intoxicamos o coração com amargura e solidão, com dúvidas e incertezas. Intoxicamos o único local que deveríamos conservar puro, neutro, límpido. O único local que é suposto ser a nossa fonte de equilíbrio. E intoxicamo-lo por sermos estes seres tão erróneos, pois todos os dias desejamos o que não temos e não queremos o que temos. A verdadeira razão pela qual o nosso coração sofre de toxicidade elevada nada tem a ver com a ciência, mas sim com a metafísica. Sei que não queres que a mencione, pai. Sei que não acreditas nisto, mas é assim. A metafísica é a única capaz de explicar o que se passa com todos nós. É simples, mas mais complexo do que qualquer doença física. Por um lado, criticamos o que nos rodeia, mas , por outro, nada fazemos para o alterar. Para além disso, não damos valor ao que temos, mas conseguimos olhar a vida dos outros e desejá-la. Desejamo-la porque o nosso peito já tem pouco de puro, mas, por diversos factores, não nos levantamos do sofá para alterar o facto que nos faz ser menos felizes.
Somos assim, porque, mantemos a dor calada. E como a mantemos calada é como se não existisse. Só que, no dia-a-dia, no quotidiano que passa rápido, que celeremente nos consome, a voz do peito fala sempre mais alto. Fala quando vemos um casal apaixonado. Fala quando nos lembramos da nossa infância tão feliz. Fala quando sentimos o cheiro daquele perfume especial na pessoa errada. Fala quando lemos aquele pedaço de papel, já amarelo do tempo, onde se escondem os sentimentos passados. Fala sempre que, de uma ou de outra forma, o coração lateja por entre as lembraças ou os desejos ainda por resolver.
E é por isso que te tinha de falar de metafísica, meu pai. Não queria ser racional neste meu pensamento, achei que era injusto para com a importância do coração. O coração puro, neutro, límpido. E mais do que tudo isto, claro, transparente. Eu só acredito em algo, como tu sabes, quando vejo transparência nos actos. Pois essa transparência evidencia um coração puro.
E era disto tudo que te queria falar e acabei por não te dizer nada de especial, pai. Só queria dizer que temos todos que nos libertar destas amarras que nos encarceram, temos todos que conseguir ver mais longe, temos todos que acreditar no nosso coração e tratá-lo bem. No fundo, o que quis dizer foi que te amo e amo-me por te amar e ainda mais do que isso, amo-te por me teres feito acreditar no coração, na sua força, na sua verdade e até mesmo por existires para eu te poder amar. O que quis dizer foi que só espero que todos venham, um dia, a sentir o que eu sinto. A viver o que eu vivo. A ser o que eu sou.
Seremos sempre coração e pensamento. Pensamento e coração. O eterno e perfeito encaixe.
MFG
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