É difícil, como dizia Saramago, «explicarmos porque pensamos desta forma e não de outra qualquer». Acrescentaria que isto acontece porque a nossa receptividade ao outro é, em muitos casos, mínima. Queremos, como dizia também Saramago, «colonizar o outro, impondo-lhe a nossa opinião». Não estamos ainda preparados para ouvir o Outro, respeitá-lo e tentar compreendê-lo. Julgamos cada passo dado pelo Outro, cada sílaba que sai da sua boca sem questionar os nossos próprios actos. Não existe nenhum Ser Humano sem contradições internas - somos duais por natureza. O que faz com que evoluamos é a vontade de minar essas contradições, de neutralizá-las, de clarificá-las. Só assim conseguiremos o "Homem Novo", aquele acerca do qual tantos escreveram, aquele acerca do qual tantos teorizaram, mas que penso (com algum pessimismo) nunca irá existir. Pelo menos, não enquanto não se abolir do pensamento Humano a perfeição, a ideia de que o Outro nunca é límpido e claro como Eu, a ideia de que o Outro é apenas mais um, a ideia de que o Outro é o outro e Eu sou Eu. Enquanto o Homem não perceber que somos todos iguais, continuarão as guerras, o imperialismo, o colonialismo - de todas as formas: reais e psicológicas.
Colonizar não é só invadir um outro país e determinar que me pertence. Colonizar é, por meio da violência, persuadir o Outro a pensar o que eu penso e a viver como eu vivo. Colonizar é, por meio dos olhares de soslaio, demonstrar desprezo pelo que eu visto ou pelo meu estilo. Colonizar é, ao ouvir o que penso e sinto, gritar comigo violentamente até que me cale. Colonizar é, no fim de contas, todas as acções que tenham em vista a subjugação do Outro, inferiorizando-o até que ele próprio se convença de que não só é inferior, como merece ser tratado como tal. [Será exagero meu ou conhecemos todos muitas pessoas que foram colonizadas?]
Acho que até hoje nunca existiu democracia.
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