«Esta dor é tão profunda. É uma dor que me acompanha há uma década. É a dor da perda da inocência ou então da chapada nessa mesma inocência. É como se a minha infância tivesse morrido. Como se a minha pré-adolescência tivesse sido adiada. É verdade que podia ter-me queixado, podia ter contado, podia ter gritado, mas não. Preferi calar esta dor por variados motivos: em primeiro lugar, não queria magoar ninguém, achava que podia sair magoada sozinha, não importava; em segundo lugar, não queria aumentar a guerra que sabia que iria começar futuramente; em terceiro lugar, acreditava que era culpa minha, que era normal, que eu merecia aquilo. Foi por isso que, a certa altura, achava que tinha conversas telepáticas com o meu tio. Não tinha, mas precisava tanto que alguém me ouvisse, que alguém soubesse ler o meu silêncio, os meus olhares de medo, os meus olhares de terror. Ninguém conseguiu fazê-lo. Acho que nunca ninguém me compreendeu realmente. Totalmente. Isso torna esta dor ainda mais profunda. Cada vez mais profunda, apesar de já ter passado tanto tempo. Considero-me hipócrita, falsa. Afinal vivo aqui. Estou aqui. Preocupo-me. Tento ajudar-te. Mesmo depois de me teres tirado a inocência. E de o teres feito sem problemas, sem remorsos. «Mas somos irmãos.» , dizia eu. «Que é que isso tem?» - gritavas. Mas tem, tem muita coisa. Tem que fizeste de mim o que sou hoje. Tem que sofro todos os dias com isto. Tem que sempre que olho nos teus olhos, sinto medo. Como sinto medo quando gritas ou me agarras no braço de forma violenta. Quando me bates ou quando tentas impor-me o teu pensamento. Eu sofro todos os dias. Sofro por ter sofrido. Sofro por não ter tido ninguém comigo. Sofro porque tu mataste a minha infância. Sim, aquela infância que podia ter sido cor-de-rosa, com borboletas e nuvens feitas de algodão. Sim, aquela infância que podia ter sido jogos, brincadeiras, corridas, quedas e joelhos doridos. A minha infância foi uma infância de gritos, ameaças, sussurros. Foi uma infância de dor, dor tão profunda que não conseguia explicar a ninguém por que razão me sentia daquela forma. Eu achava que era assim com toda a gente, com todos os irmãos. Eu achava que era normal, tu dizias que era, que não tinha mal. Mas eu sentia nojo. E dor. E apetecia-me vomitar, morrer, sair, fugir.
Apesar de tudo, sobrevivi. Mas não esqueço, nunca esqueci. Nunca hei-de esquecer. Sinto que quanto mais tempo passa, maior é esta dor que me dilareça o peito. Como é possível ainda te desejar tão bem? E querer que sejas feliz? Depois de todo o mal que me fizeste, depois de toda a dor, depois de todos os gritos, depois de tudo isso, como é possível querer-te bem?»
- Como se sentiu ao escrever esta carta, Tânia? - questiona Ana, a psicóloga, enquanto lhe devolve a folha de papel.
- Senti-me ... senti-me como se não merecesse ser amada. Senti-me como se cada vez fosse mais complicado entender-me e essencialmente sentir que mereço o amor de quem quer que seja.
- Mas você já entendeu que nada disto é culpa sua, certo? - Ana estende a mão à espera da mão de Tânia que nunca chega. Tânia baixa a cabeça e fita o chão branco.
- Eu sei que não é. Mas, por vezes, sinto-me tão triste que me pergunto se, afinal de contas, não serei má pessoa. É que eu desejo bem a alguém que só me deu coisas más. Isso faz sequer sentido?
- Querida, oiça. Nem tudo na vida tem necessariamente de fazer sentido. Você tem um coração muito grande, de ouro diria a sabedoria popular. Você não consegue cultivar o ódio dentro de si porque só tem amor para dar. De certa forma tem pena dele, eu sei. Sente até compaixão, pois acha que ele nunca vai conhecer a verdadeira felicidade, certo? Nunca será verdadeiramente feliz.
- Acho que é isso, sim. Não sinto ódio por ele, é verdade. Aliás não sinto isso por ninguém. Acho que odiar só nos faz mal. E eu tento, todos os dias, sentir-me melhor comigo própria. Mas e à noite, como faço? Sempre que deito a cabeça na almofada, sinto uma dor imensa, um arrepio, um medo que me corta, que me despedaça. Sempre que oiço o ressonar dele, fico aflita. E quando entro no quarto e o apanho em cenas que não desejo, sinto-me doente, apetece-me vomitar e morrer ali mesmo. Só me apetece ... sei lá ... só me apetece... - Tânia não aguentava tanto choro contido e acabou por, apesar de não querer, se agarrar à psicóloga que lhe cobrava imenso dinheiro à hora, a chorar. A soluçar.
- Só lhe apetece ser feliz, eu sei. - Ana retribuiu o abraço e deixou que Tânia chorasse até se cansar. Depois falariam dos problemas existenciais que assolavam a jovem mulher.
MFG
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