Sento-me perto da cascata – uma
cascata qualquer desde que seja bela, imponente e límpida – e cruzo as pernas.
Aproximo a minha mão esquerda da mão direita e deixo-as cair no meu colo,
posicionando-as de forma a que os dedos indicadores apontem para o meu umbigo –
o centro energético do meu corpo, o que resta do cordão umbilical, o mais perto
do que um dia fui. Endireito a coluna, semicerro os olhos e penso em tudo o que
me aconteceu até aqui – como vim aqui parar? Quem sou eu? Quem fui? Como fui
essa pessoa? Porque já não sou essa pessoa? -, penso especificamente no que me
aconteceu hoje – Será que devia ter pedido desculpa e não pedi? Será que devia
ter escolhido outra palavra? Será que a magoei? Poderia ter sido mais
compreensiva com os outros ou mesmo comigo própria? -, penso no que poderei vir
a ser – Será que vou atingir os meus objectivos? Será que vou ser sempre feliz?
O que é ser feliz? Vou acabar como todos os outros: frios, insensíveis, mortos
que se limitam a sobreviver? – e, por fim, recordo as palavras do meu instrutor,
do meu amigo Salvador: «Ouve, querida, tens de relaxar. Como se não houvesse
passado ou futuro, mas apenas presente. Contudo, mesmo o presente é um presente
do qual te distancias – o que há de mal é só o que há de mal, nada mais. Faz o
exercício da respiração como te ensinei: inspiras, expiras, inspiras, expiras.»
Estas palavras fazem sempre com
que pense na quantidade de vezes que respiramos durante as 24 horas que compõem
um dia e como não prestamos atenção nenhuma a isso. Como é que não nos
sentamos, tentamos esquecer tudo à nossa volta e olhamos para dentro de nós
próprios, tendo a perfeita noção do funcionamento dos nossos órgãos, da
estrutura do nosso corpo, da profundidade da nossa alma, do nosso “Eu”? Como é
possível que passemos a vida a correr – sem
saber bem para onde – e não nos sentemos no banco do jardim a apreciar uma
árvore, uma pedra, um cão, um pedaço de terra, o simples gesto bondoso de um
velho que dá a mão ao seu neto? Que andamos a fazer aqui, afinal?
Oiço a água a correr na cascata.
É como se me ouvisse a mim própria, os meus pensamentos correm uns atrás dos
outros - «não chegues tarde», «deixa-me em paz», «já te disse que não vou
voltar atrás», «não é aquilo que parece, a sério», «já te tinha avisado que não
era assim que se fazia isso», «é impressionante o quão burra consegues ser» -,
sem cessar, sem me dar tréguas. Quero que parem, quero que acabem, mas não -
«Deixa os pensamentos passarem, com calma, lentamente, sem pressas. Lembra-te:
o mais importante é que em ti tudo seja natural e nada seja imposto.», sussurra
o Salvador aos meus ouvidos como se fosse um espírito, como se eu e ele
comunicássemos por telepatia.
Volto a tentar. Sinto todo o meu
corpo a adormecer, é como se fosse uma sensação de formigueiro em todo o meu
corpo – sabem aquela sensação de quando são abraçados pela pessoa que amam? É
isso que se sente um pouco antes de se atingir o nirvana -, deixo de ouvir o barulho límpido da água e só oiço o
silêncio, o som mais puro, mais belo de todo o Universo: o som da Mãe, a
Terra-Mãe que nos pariu, o som do Pai, o som do Pai que amou a Mãe, o som do
Amor, o som da Paz. Sinto a minha respiração, sinto-a em todo o meu corpo, não
quero sair daqui, quero estar aqui, ficar aqui, não quero abrir mais os olhos.
Quero cegar. Ficar cega aqui – com o som silencioso da água, respirando com a
consciência plena de que o faço, sem medo do futuro, sem o peso do passado ou a
ânsia do presente -, ficar cega aqui e abraçar todo o Universo de uma só vez.
Estar aqui – comigo -, estar aqui – contigo -, estar aqui – convosco -, cega,
surda, muda. Sem sentidos, mas com todos eles tão apurados que, finalmente, sei
o que é a felicidade. Pura.
MFG
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