agosto 10, 2012

cão ladra

O cão ladra. Eu sorrio. Nunca percebi porquê, mas de facto o ladrar dos cães faz-me sorrir. Acho-os semi-deuses, se é que isso existe. Ou mesmo deuses, caso existam semi-deuses. Parecem-me puros, inocentes, ingénuos. Anjos sem forma humana, sem qualquer forma humana. E a maneira como abanam a cauda quando estão contentes? Podemos saber que estão contentes. No caso do ser humano, um sorriso pode ser falso, uma gargalhada irónica, mas o abanar da cauda de um cão? Sempre verdadeiro. E aquele brilho no olhar que parece ter sido polido só para nós, só para ser olhado? Os olhos são o espelho da alma, mas só nos cães. Os seres humanos estão munidos da arte de enganar. Da capacidade de falsificar emoções. Vejam lá que até conseguem fingir que estão a chorar? Basta fixar um ponto e lá caem lágrimas como se de tristeza ou angústia se tratasse. Os cães? Os cães não. Quando os ouves ganir, é porque estão a sofrer. Eles não sabem fingir. Como o saberiam? São animais de instintos, mas instintos naturais. E, como tudo o que é natural, é verdadeiro, os cães são sempre aquilo que são. Lambem-nos as pernas se nos amam. Mordem-nos os braços se tentamos fazer mal a quem eles amam. E as pessoas? Amam, sequer? Fingem que amam? Sabem o que é amar? E quando parecem gostar de nós, gostam? Ou só estão a fazer parte de uma peça de teatro? Quando perde o dono, o cão pode morrer de saudades. Aliás, morre muitas vezes de saudades. Ouve-se o som angustiante do seu choro, um choro tão sentido que aperta o peito. Deixa de abanar a cauda. Deixa de comer. Deixa de saltar e brincar com a bola preta e branca. Deixa de ter os olhos brilhantes e "pedir" comida encostando a cabeça nos nossos joelhos. Um cão morre quando o dono morre, quando alguém que ama morre. E uma pessoa? Não. É por isto tudo que sempre que o cão ladra, eu sorrio.

MFG

Sem comentários:

Enviar um comentário

Seguidores