abril 06, 2012

Deus

Só quero deitar-me na cama e dormir. Dormir para esquecer esta vida que vai passando enquanto estou acordada. Para perder de vista esta dor que de mim se apoderou. Havia tanto tempo que não me sentia assim: perdida, vazia, só, profundamente só. Que raio de Deus és tu, afinal? Omnisciente e  omnipotente que nada mudas, nada fazes, nada dizes? Como é que posso acreditar que existes se nunca te vi nem em actos, nem em palavras, nem em sonhos? Só posso dizer que existes, porque te vejo nas omissões, vejo-te naquilo que tu não fazes, naquilo que tu não mudas, naquilo que tu não entendes.
É por isso que só me quero deitar na cama e dormir. Dormir para ver se te encontro, para ver se me dás algum sinal, se mudas algumas destas coisas que me impedem de ser feliz. Não me venhas dizer que eu é que tenho de mudar as coisas! Que mais tenho feito eu do que isso mesmo? Que mais tenho eu tentado fazer do que mudar tudo isto? Tu não existes, não me venhas dizer que és omnipotente, pois se és detentor de toda a potencialidade para mudar as coisas, por que razão elas continuam iguais? Tu não existes, porque se existisses tudo o que era mau iria parar a todos os que são maus e não o oposto. Tu não podes existir, porque se existisses eu não estaria a escrever isto, eu não precisaria de dissertar sobre a tua existência. Se, ao menos, me desses um sinal, qualquer coisa, uma luz, a luz, a escuridão, a mudança, a diferença, a felicidade, a infelicidade, qualquer coisa, a coisa mais simples, a coisa mais complexa. Mas não. Não sinto nada que venha de ti, não recebi nada teu, não percebo por que razão inventaram que existias: seria só para causar inquietação? Seria só para causar frustração quando percebessemos que eras a maior mentira de todos os tempos?
Tu não existes e, por isso, estou a falar para o vazio. Para o nada. Tu és o nada. Tu não és nada. Tu não existes, porque se existisses ... isto não estaria assim.

«Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.» José Saramago.

Mariana Guerreiro

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