Às vezes gosto de ficar assim no silêncio. Sozinha a pensar sobre tudo e sobre nada. A dispersar o meu intelecto por entre todos os temas que me vão ocupando os dias. Gosto de ficar assim no silêncio a pensar nos meus sonhos, na utopia que pretendo atingir primeiro dentro de mim e só depois fora de mim. Gosto de ficar assim a remexer os meus dramas e as minhas tristezas do passado. Mas também os do presente. No fundo, gosto de parar para pensar. Gosto de pensar em mim. Gosto de pensar dentro de mim. Gosto de reflectir em relação à forma como trato os outros e como os outros me tratam. Gosto de imaginar conversas, conversas hipotéticas que nunca aconteceram e talvez nunca irão acontecer. Gosto de pensar qual seria a minha reação em cada uma delas. Gosto de pensar se iria reagir adequadamente ou não.
À minha volta podem estar móveis acabados de encerar e tapetes acabados de limpar ou podem estar árvores recheadas de frutos que baloiçam ao som do vento. É-me indiferente. Dentro ou fora, eu estou aqui. Eu estou aqui neste momento. Eu estou a enviar as minhas energias para o espaço em que estou. Se não estou com ninguém neste momento exacto, isso não significa que esteja sozinha. Não significa necessariamente que não esteja a contribuir para melhorar o mundo. Porque eu preciso deste silêncio, desta paz, desta calma para ganhar forças. Para carregar baterias. Como conseguiria eu sobreviver às agruras da vida, às teimosias dos velhos e à insensibilidade dos novos se não pudesse, de quando em vez, ficar assim, só assim, quieta, calada, no silêncio? Que pessoa seria eu se não me desse a este luxo de pensar em mim, comigo e por mim uma vez por outra?
Às vezes gosto de ficar assim no silêncio. Tal como gosto de estar na confusão, no espírito festivo e ligeiramente alcoolizado, no abraço profundo e forte, nas palavras em jeito de brincadeira. Assim como aprecio uma boa conversa, sobre um tema qualquer, desde que a pessoa seja interessante e me cative. Desde que a pessoa esteja realmente ali, naquele momento. É isso. Cheguei agora à conclusão. À inequívoca conclusão: o que eu gosto é de ser cativada. Mesmo que seja por mim própria. A vida, isto, esta coisa que acontece agora e já aconteceu há um segundo atrás, é isso mesmo.... Cativas-me silêncio. Amenizas a minha dor. A dor do mundo. E dás-me simultaneamente e talvez contraditoriamente, força para te abandonar e ir tentar de novo ser cativada pela confusão.
Obrigada, silêncio.
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