agosto 06, 2013

Alma obesa

«- Olho-me ao espelho. Umas vezes olho apenas porque o espelho está mesmo ali quando saio do banho e outras olho na esperança de ter emagrecido. Mas eu não como nada de especial, eu só como sopa às refeições principais, como posso pesar 120 quilos? Só pode ser do hipotiroidismo, uma das muitas doenças que me foi diagnosticada há uns anos atrás. Não vejo outra razão, outra explicação para este peso que não me deixa andar nem que seja cinco minutos para visitar os meus pais que moram aqui tão perto de mim. Tenho também problemas do foro digestivo e é, sem dúvida, por isso que me custa tanto subir apenas um lance de escadas. A verdade é que geralmente dou um toque ao meu filho para que ele me vá buscar as compras lá abaixo porque eu sei bem como sofro. Dói-me tudo: as pernas, os pés, os braços, as mãos, a cabeça. O meu estado normal é o estado de total doença. Tomo ainda um anti-depressivo para "curar" uma depressão que tive há uns anos quando trabalhava ainda no Banco. Por vezes pergunto o que me aconteceria se deixasse de tomar todos estes comprimidos? Será que o meu corpo está completamente viciado nestas drogas legais receitadas por vários homens e mulheres que estudaram anos e anos de medicina? Ou será que a minha mente poderia ser mais forte do que é?
Até era, sabe. Fiz ginástica durante anos quando era mais nova. Ainda guardo com amor a saia de linho cor-de-rosa que usava nas aulas. A última vez que a tirei do armário foi para mostrar à namorada do meu filho. Ela sorriu e eu pensei como me sentia humilhada por já não poder usar aquela saia nem fazer rigorosamente nada por isso. Por vezes penso que sou fraca, que poderia ser mais forte. A verdade, doutora, é que não sou feliz. Quer dizer, amo muito o meu filho. No fundo, ele é a razão do meu viver. Um rapaz com valores, um rapaz como há poucos por aí. Eu sei que ele sofre com a minha situação e também com a relação que eu e o pai dele temos...» - a lágrima que ia caindo da face de Dora lavava o seu rosto rechonchudo e marcado
pelos problemas de estômago apresentando umas manchas mais escuras aqui e ali. 
«Como é a sua relação com o seu marido? O Senhor Dinis, certo? - Os olhos verdes da psicóloga abriam-se em jeito de curiosidade, aquela curiosidade própria de quem quer entender a alma do Outro e dar-lhe os recursos para sair de uma situação que não o faz feliz.
«Bem... Ele acha que é feliz, já eu.. Eu tenho mais consciência de como as coisas poderiam ser do que ele, acho eu. A primeira vez que ele me bateu, deixe-me ver... Ah sim, estávamos no carro, ainda namorávamos, veja lá. E eu olhei para o carro do lado onde estava um rapaz a conduzir e outro rapaz de pendura. Só me lembro do que senti no momento. Eu olhei para o lado, como estou a dizer, e como que instantaneamente, ele dá-me uma chapada. Forte, muito forte. Fiquei chocada, estupefacta, sem saber bem o que fazer. Lembro-me do meu pai bater na minha mãe e traí-la. E ela parecia sempre tão feliz. Pensei: espero que ele me peça desculpa e explique que raio foi isto.»
«E ele pediu desculpa?»
«Não. Ele é lá homem de pedir desculpa. Fui-me apercebendo disso ao longo dos anos. Ele acha que está sempre certo, tem sempre razão. Veja lá que até a namorada do meu filho teve de levar com o mau humor dele uma vez lá no Algarve.» disse Dora com um ar triste.
«Então e o que é que a faz ainda estar com ele?»
«Que pergunta, doutora! Já olhou bem para mim? Acha que algum homem me quer? E o dinheiro? Como é que faço? Eu não tenho forma de sair desta situação, doutora. É continuar a aguentar...»
«Para sempre? E já pensou como isso afecta o seu filho?»
«Doutora, deve afectar, mas ele já se habituou, tal como eu. Ele saiu tão bom rapaz que não parece afectá-lo de todo. Além disso, nós podemos discutir, mas gostamos muito um do outro e até nos damos bem.» Dora fazia um sorriso meio forçado e tentava com palavras doces convencer a psicóloga de que era feliz, mas ela própria sabia bem que não o era.
«Dora, acha que quem ama trata mal ou bate? Vou-lhe dizer o que penso e faz aquilo que achar melhor com essa informação: enquanto há vida, há esperança. Se ainda não achamos o que nos faz feliz, temos de procurar mais. Pelo que já falámos em sessões anteriores, o seu filho gosta muito de si e, por isso, estou certa de que ele a ajudará caso resolva sair de casa. Acredite em mim que irá ficar muito orgulhosa de si se tentar ser feliz. Já pensou que a obesidade causa todos os outros problemas de saúde, mas que esta foi causada pela falta de amor e de respeito? Já pensou que nunca foi verdadeiramente amada nem feliz e que por isso recorre aos doces - quando não está ninguém por perto - para acalmar e preencher esse vazio interior? Posso-lhe dizer que tem muito a fazer por si, mas como sempre na vida só pode contar consigo própria. Acredite que merece ouvir um "amo-te" e merece ter carinho. Mas não espere que isso lhe caia do céu. Tem de mudar, Dora. E tem de mudar rapidamente.» - a psicóloga ficava muito comovida com estes casos porque uma das suas amigas tinha estado numa situação parecida e tinha conseguido mudar e finalmente conhecera a felicidade. Tivera a oportunidade de experienciar essa sensação óptima. 
«É muito tarde, doutora. Além disso acho que já passou o nosso tempo de consulta. Marcamos a próxima para que dia?» Dora tentava escapar-se ao máximo do confronto e deste género de palavras.
«Nunca é tarde... Daqui a duas semanas, então? Até lá.» 
Dora abandonou a sala a custo, como sempre. Notava-se o cansaço não só físico, mas também psicológico. «Mal sabe ela que o meu irmão me violou quando era nova, que a minha mãe sempre me tratou mal, que tive namorados abusadores e que ainda sofro com isso. Mal sabe ela que tenho de me esforçar imenso para ser feliz. Mas independentemente disso, mal sabe ela que prefiro muito mais ter de me esforçar para ser feliz, do que me entregar, como ela, à fatalidade da infelicidade. », pensou a psicóloga enquanto tirava da mala a sua maçã e uma tosta integral para ir comer enquanto lia um livro.

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